O Goldman Sachs elegeu a curva de juros local como a “maior aposta” às vésperas do primeiro turno, citando uma assimetria rara: o potencial de queda das taxas supera em magnitude o risco de alta. O relatório aponta prêmios elevados embutidos nos DIs que não se justificam apenas pelos fundamentos. A pergunta que fica é: qual vértice da curva captura esse movimento com menor ruído?
Por que o miolo da curva virou o alvo preferido
O banco recomenda posições aplicadas nos vértices intermediários da curva de DI. A lógica evita a volatilidade de curto prazo — sensível a choques de energia — e mira onde o prêmio fiscal residual está mais inchado. Atualmente, o déficit total beira 10% do PIB, o maior entre emergentes acompanhados pela casa, enquanto o primário ronda 0,6%.
Mais da metade da dívida pública está atrelada à Selic e o prazo médio é curto. Hoje, isso pressiona o custo da dívida; amanhã, numa queda de juros, o alívio chega rápido ao Orçamento. Essa mecânica transforma a dinâmica da dívida em um gatilho potente para fechamento agressivo das taxas se a credibilidade fiscal melhorar.
O círculo virtuoso que vale 3,7 pontos do PIB
A tese central do Goldman conecta três elos: disciplina fiscal permite juros menores; juros menores reduzem a conta de juros; a economia reforça o fiscal. Dependendo do nível de convergência das taxas, a economia acumulada com despesas financeiras varia entre 2 e 3,7 pontos percentuais do PIB.
Existe hoje um prêmio residual médio de 80 pontos-base entre os vértices de 2 a 10 anos que os modelos não explicam por inflação, crescimento, fiscal ou externo. Um resultado eleitoral favorável funcionaria como catalisador para expurgar parte desse excedente.
Dólar a R$ 4,50? As contas do câmbio no cenário ideal
O real entra no período sustentado por juros reais recordes para uma eleição desde 2010 e pela melhora dos termos de troca. No cenário fiscal benigno, o banco vê o dólar a R$ 4,80 como compatível com a eliminação total do prêmio de risco acumulado em 2024.
- Cenário amigável: faixa de R$ 4,50 a R$ 4,80.
- Deterioração moderada: volta a R$ 5,40 (patamar de setembro/2024).
- Estresse severo: proximidade de R$ 5,80 (nível de dezembro/2024).
Mas o histórico alerta: movimentos cambiais pós-primeiro turno costumam ser intensos, porém efêmeros. Em 2022, o real ganhou 4,5% no dia seguinte; em 2018, o acumulado até o segundo turno chegou a 10%. O mercado cobra, rapidamente, nomes para a equipe econômica e execução de políticas.
Bolsa: a alavancagem está no doméstico sensível a juros
O Ibovespa subira 10% desde as mínimas de agosto, puxado por setores domésticos. Porém, excluíndo exportadoras de commodities, as ações domésticas estavam estáveis no ano. A cesta de “juros sensíveis” do Goldman recuava 5%, mesma queda dos small caps.
Esses papéis têm sensibilidade à taxa duas a três vezes maior que o índice cheio e negociam a 10,3x lucros projetados — 0,9 desvio-padrão abaixo da média de dez anos. A combinação de valuation depreciado e beta alto cria assimetria positiva se a eleição destravar a queda dos juros. O banco também destaca call spreads de curto prazo em índices (como EWZ) como forma eficiente de capturar um rali eleitoral, notando alta no interesse aberto nessas opções.
O que a história ensina sobre o intervalo entre turnos
Entre o primeiro e o segundo turno, o MSCI Brazil avançou 4% a 7% em reais (6% a 9% em dólares) em 2006, 2018 e 2022. Em 2014, caiu 5%. Setores como utilities, energia, bancos e consumo discricionário lideraram a sensibilidade histórica.
O decisivo, porém, veio depois. Em 2006 e 2018, altas de 10% a 20% em seis meses. Em 2022, queda de 15%. A diferença residiu nas políticas implementadas após a posse. Fluxos estrangeiros seguem baixos versus ciclos passados, sugerindo espaço para uma “segunda onda” de entrada se a incerteza dissipar.
Crédito soberano: assimetria invertida exige cautela
Nos títulos em dólar, o cenário é oposto. Spreads estão historicamente apertados e superam o índice de high yield emergente desde julho. Há pouco espaço para compressão adicional e risco relevante de abertura se o resultado decepcionar. A assimetria, aqui, joga contra.
O que observar daqui para frente
O domingo dispara a volatilidade, mas o fiscal dita a tendência. Para o investidor, a hierarquia de oportunidades fica clara: juros (melhor assimetria imediata) → dólar (faixas de R$ 4,50 a R$ 5,80 como referências) → Bolsa doméstica sensível a taxas (maior beta e valuation atrativo). O gatilho é a urna; a duração do movimento depende da caneta do próximo ministro da Fazenda.
