Tecnologia

O segredo do Kaszek: por que o Brasil engoliu 2/3 dos investimentos puros em IA

Hernán Kazah, cofundador do Kaszek, ao lado de gráficos mostrando investimentos em IA no Brasil
Kaszek direciona 2/3 dos investimentos em IA pura para o Brasil, revela Hernán Kazah.

O maior fundo de venture capital da América Latina direcionou metade do capital aportado nos últimos 18 meses para “aplicações puras de inteligência artificial”, e dois terços desse montante ficaram no Brasil. A revelação vem de Hernán Kazah, cofundador do Mercado Livre e criador do Kaszek, e sinaliza uma mudança de eixo que vai muito além de modismo.

Mas o que torna o mercado brasileiro tão voraz por essa tecnologia a ponto de ditar o ritmo de um portfólio de 175 empresas?

O Brasil como motor da nova onda

Historicamente, o Brasil sempre respondeu por cerca de 50% do capital que o Kaszek aloca na região. Nos últimos 24 a 36 meses, no entanto, a fatia destinada a projetos de IA disparou. Kazah cita nomes como a Enter — primeiro unicórnio nativo de IA da América Latina, avaliada em US$ 1,2 bilhão com clientes como Nubank e LATAM — e a Comp, que já captou mais de R$ 100 milhões atendendo iFood, Stone e Uber.

Essas empresas nasceram no Brasil para resolver problemas locais, mas nasceram com DNA global. Para o investidor, o país não é apenas o maior mercado: é onde os empreendedores mais técnicos e jovens estão surgindo.

Internacionalização em velocidade dobrada

Kazah traça um paralelo revelador. A Wellhub (ex-Gympass) levou anos para cruzar as fronteiras da América Latina e chegar a Europa e EUA. Já as startups de IA atuais, segundo ele, parecem capazes de encurtar drasticamente esse ciclo.

A hipótese ainda carece de validação longa, mas a lógica é clara: software baseado em modelos de linguagem escala sem a fricção operacional de marketplaces ou logística física. Se confirmado, o “time-to-global” deixa de ser barreira e vira vantagem competitiva imediata para quem empreende por aqui.

Regulação: freio ou farol?

O debate global esquenta. Bill Gates classificou a IA como “a coisa mais perigosa” já criada; Donald Trump descartou regulação federal dura nos EUA. No meio do tiroteio, a posição de Kazah é pragmática: não se pode colocar a regulação à frente do progresso.

Ele reconhece o valor dos alertas — eles forçam o debate sobre riscos reais —, mas avisa que travas prematuras sufocam a inovação antes que ela prove seu valor. A aposta é na capacidade humana de corrigir rotas, como ocorreu em revoluções energéticas e computacionais passadas.

A revolução silenciosa no talento: 19 anos, sem diploma

Talvez o dado mais disruptivo não seja financeiro, mas humano. A última contratação do Kaszek no Brasil foi um estudante de 19 anos do ITA, autodidata em IA, sem diploma universitário.

  • O fundo busca “brilho no uso da tecnologia” e personalidade para debater de igual para igual com sócios experientes.
  • A tese: em mudança de paradigma, a experiência passada pode cegar; a ausência de vícios do modelo antigo vira ativo.
  • O time brasileiro (15 a 20 pessoas) agora mistura um ex-CEO do Nubank de 46 anos com garotos que nunca pisaram numa faculdade.

Fundadores investidos seguem o mesmo padrão: mais jovens, mais técnicos, menos apegados a credenciais formais.

O gargalo argentino: energia tem, capital falta

Questionado sobre o sonho de Javier Milei de transformar a Argentina em hub de data centers, Kazah confirma a vantagem energética, mas aponta dois obstáculos duros: hardware dependente de importação e capital sensível a risco-país.

Projetos de infraestrutura de IA exigem previsibilidade de 5 a 15 anos e centenas de milhões de dólares. Sem regras claras e estabilidade macroeconômica, a energia barata vira apenas potencial não realizado.

O que observar daqui para frente

Três sinais valem monitorar nos próximos trimestres: a velocidade real de internacionalização das “AI natives” brasileiras (Enter e Comp são os testes de fogo); a capacidade de fundos como o Kaszek manterem a taxa de acerto apostando em perfis não convencionais; e se o Brasil consegue converter intensidade de uso — já estamos no topo global de usuários de ChatGPT — em produtividade setorial mensurável. Para o empresário, a lição prática é imediata: a barreira de entrada caiu, mas a barreira de execução técnica subiu. Quem não tiver IA no core da operação, não no discurso, ficará para trás antes do próximo ciclo de captação.