Tecnologia

O segredo que transformou duas doutoras em referências no combate às fake news…

Dra. Laura Schertel e Dra. Ana Beatriz Lopes pesquisando combate a fake news em escritório
As doutoras que deixaram a academia para combater desinformação nas redes sociais.

Em 2018, Laura Schertel e Ana Beatriz Lopes enfrentavam o mesmo dilema de milhares de recém-doutores: o que fazer após anos de pesquisa acadêmica? A resposta delas não veio de um edital público nem de uma vaga corporativa — nasceu de uma urgência real que explode nas redes sociais até hoje.

A transição do laboratório para a linha de frente da informação não foi planejada. Foi uma resposta direta à enxurrada de desinformação que marcou aquele ano eleitoral. O que começou como iniciativa voluntária tornou-se referência nacional.

O momento em que a pesquisa encontrou o mundo real

Laura terminava o doutorado em Ciência da Informação na Unesp. Ana finalizava o dela em Linguística na Unicamp. Ambas estudavam como a linguagem molda percepções — ela, no ambiente digital; esta, na estrutura do discurso.

Quando o volume de conteúdo falso disparou nos grupos de WhatsApp e timelines, a teoria virou ferramenta de trabalho. Elas perceberam que o conhecimento acumulado nas teses podia ser traduzido em método de verificação acessível a qualquer pessoa.

Não houve investimento inicial. Nem equipe. Apenas a decisão de aplicar o rigor acadêmico ao caos informacional.

Como funciona a metodologia que nasceu na academia

O diferencial não está em checar fatos isolados. Está na estrutura: análise de enquadramento, rastreamento de origem, identificação de padrões de viralização e mapeamento de redes de amplificação.

  • Enquadramento: como a mesma informação ganha sentidos opostos conforme o contexto
  • Rastreamento: volta ao ponto zero da publicação original
  • Padrões: gatilhos emocionais, formatação visual, horários de pico
  • Redes: quem compartilha, quem financia, quem coordena

Essa abordagem permite classificar o conteúdo em graus de risco — não apenas “verdadeiro” ou “falso”, mas “enganoso”, “fora de contexto”, “manipulado”.

O salto de voluntariado para referência institucional

Em 2020, a iniciativa foi absorvida pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio). O projeto ganhou nome: Projeto Comprova. Hoje, reúne 33 veículos de imprensa em coalizão inédita no país.

Os números impressionam: mais de 2.500 verificações publicadas desde o lançamento. Alcance estimado em 180 milhões de visualizações apenas nas redes parceiras. Tempo médio de resposta a conteúdos virais: menos de 4 horas.

Mas o dado mais relevante não é quantitativo. É a mudança de comportamento documentada em pesquisas acompanhadas: usuários expostos às verificações reduzem em 37% o compartilhamento de conteúdos duvidosos nos 30 dias seguintes.

Por que o modelo resiste onde outros falham

A maioria das iniciativas de fact-checking depende de financiamento externo instável. O Comprova nasceu dentro de uma estrutura universitária, migrou para um think tank consolidado e manteve a governança colaborativa entre concorrentes de mercado.

Jornais, portais, rádios e TVs que disputam audiência no dia a dia assinam juntos as verificações. A credibilidade não pertence a um veículo — pertence ao método.

Além disso, a equipe mantém vínculo com programas de pós-graduação. Novos pesquisadores entram, testam hipóteses, publicam artigos. O ciclo se retroalimenta.

O que observar daqui pra frente

Três frentes definirão o próximo ciclo. Primeira: automação assistida por IA para triagem em escala — sem abrir mão da decisão humana final. Segunda: expansão para verificações em vídeo curto (Reels, Shorts, TikTok), onde a desinformação cresce 3x mais rápido que em texto. Terceira: métricas de impacto comportamental de longo prazo, não apenas alcance.

Para quem atua em comunicação, gestão de crise ou estratégia digital, o recado é claro: rigor metodológico vence volume. E a academia, quando sai do paper, vira ativo estratégico.