Economia

Bolsas dos EUA ensaiam respiro após perderem R$ 17,6 tri em um dia: o que vem agora?

Gráfico de alta leve do Nasdaq e S&P 500 após queda histórica de R$ 17,6 tri em Wall Street
Bolsas dos EUA ensaiam recuperação tímida após perdas recordes impulsionadas por temores macroeconômicos e setor de IA.

Wall Street estancou a sangria nesta sexta-feira (6), mas o alívio foi tímido: o Nasdaq 100 subiu 1,4% e o S&P 500 avançou apenas 0,3%, recuperando menos de 10% dos pontos perdidos na véspera. A pergunta que fica é se o pior já passou ou se foi apenas um repique técnico antes de nova onda de vendas.

Na quinta-feira, o medo de que democratas eleitos travassem a expansão de data centers — infraestrutura vital para a inteligência artificial — varreu US$ 3,2 trilhões (R$ 17,6 trilhões) do valor de mercado americano. Foi a maior evaporação de riqueza em uma única sessão desde o auge da pandemia.

O gatilho que ninguém previa

A vitória de Gina Hinojosa para o governo do Texas acendeu o pavio. O estado é o maior polo de data centers do país, e a democrata prometeu uma moratória na construção de novas instalações. O mercado interpretou como um freio brutal no boom da IA e liquidou posições em massa.

Nesta sexta, Hinojosa esclareceu: a pausa atingiria apenas novas licenças e seria temporária, sem afetar projetos já programados até 2027. A declaração acalmou os ânimos, mas o estrago já estava feito.

Números que mostram a fragilidade do rebote

Historicamente, após dias de queda superior a 4%, o S&P 500 costuma recuperar em média 46% das perdas na sessão seguinte. Desta vez, o índice devolveu menos de 10%. O dado expõe a desconfiança persistente dos grandes players.

  • Nasdaq 100: -6,4% (qui) → +1,4% (sex)
  • S&P 500: -4,4% (qui) → +0,3% (sex)
  • Nvidia: -9,2% (qui) → +2,8% (sex) — perdeu US$ 400 bi em um dia
  • Micron: -17% (qui) → +5,1% (sex)

Venda forçada, não mudança de fundamentos

Para Ajay Rajadhyaksha, do Barclays, a magnitude da queda não se justifica pelo resultado eleitoral. Ele aponta para desmonte forçado de posições alavancadas de fundos hedge concentrados em ações de momentum ligadas à IA. Quando esses fundos precisam vender rápido para cobrir margens, a liquidez evapora e os preços desabam além do razoável.

Arun Sai, da Pictet Asset Management, corrobora: “As perspectivas de lucros e da economia não mudaram o suficiente para justificar a liquidação de ontem.” Ele não descarta compras oportunistas até o fim do ano, aproveitando os preços mais baixos.

O contágio global já começou

Enquanto Nova York tentava se recompor, a Ásia afundou. O Nikkei 225 despencou 6% — pior dia desde a guerra comercial de abril de 2025. O Kospi sul-coreano, pesado em chips, tombou 6%. Na Europa, onde há menos exposição direta às big techs, o Stoxx 600 limitou a queda a 1,1%.

Mas o efeito mais relevante aparece no comportamento dos gestores: a velocidade com que o mercado “explicou” o pânico de quinta-feira preocupa veteranos como Mike Zigmont, do Visdom Investment Group. “Deveria haver mais cautela”, alerta.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam os próximos passos: (1) se Hinojosa mantém o tom conciliador ou endurece a retórica; (2) se o fluxo de fundos hedge se estabiliza ou novas liquidações forçadas surgem; (3) a temporada de balanços das big techs nas próximas semanas — qualquer sinal de desaceleração em capex de IA pode reativar o pânico. Quem tem exposição concentrada em semicondutores e data centers deve revisar tamanhos de posição e stop-loss antes da próxima abertura.