Justiça

Senado cala sobre Flávio: salário, voto remoto e o mistério que travam a Casa

Plenário do Senado Federal vazio com cadeiras desocupadas simbolizando omissão sobre caso Flávio Bolsonaro
Senado mantém silêncio há dez dias sobre situação regimental do senador Flávio Bolsonaro

Há dez dias o Senado mantém silêncio total sobre a situação regimental do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que deixou o país em 27 de outubro. A omissão da Mesa Diretora paralisa a definição sobre faltas, salários e a validade de votações remotas, criando um vácuo normativo sem precedentes na legislatura.

Enquanto a instituição não se pronuncia, o parlamentar votou à distância na terça-feira (3) pela aprovação da PEC da Segurança Pública. O episódio expõe a fragilidade dos controles internos e levanta dúvidas jurídicas que podem contaminar a segurança institucional do Congresso.

Os cinco pontos que a Mesa Diretora ignora

A reportagem protocolou questionamentos formais há mais de uma semana. Nenhum foi respondido. A lista de pendências define o tamanho do problema:

  • Licença oficial: Não há confirmação se o senador comunicou o afastamento prévio, exigência regimental para ausências justificadas.
  • Registro de faltas: Sem justificativa formal, o sistema deveria computar ausências automáticas. O Artigo 55 da Constituição prevê perda de mandato ao faltar a um terço das sessões.
  • Acesso ao SDR: O Senado não informa se o parlamentar manteve credenciais ativas no Sistema de Deliberação Remota após sair do território nacional.
  • Pagamentos: Subsídios, verbas de gabinete e indenizatórias seguem sendo depositados sem posicionamento sobre eventual bloqueio administrativo.
  • Conselho de Ética: O descumprimento de ordem judicial (entrega de passaportes) e a saída do país sem aviso não geraram, até agora, representação por quebra de decoro.

Risco sistêmico para a previsibilidade das decisões

Para o ambiente de negócios e investidores, o caso vai além da disputa partidária. A ausência de regras claras para a atuação de um parlamentar fora do país — mantendo voto e salário — cria insegurança jurídica sobre a validade de atos legislativos sensíveis.

Se o voto de Flávio na PEC da Segurança for anulado futuramente, como pede o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), abre-se precedente para questionar qualquer deliberação com participação remota irregular. A instabilidade regulatória afeta diretamente a confiança nas instituições que embasam contratos e investimentos de longo prazo.

O fio da meada: foro privilegiado e investigações em curso

O pano de fundo explica a urgência. Flávio é investigado em dois inquéritos no STF: um por suposta lavagem de dinheiro ligada a apostas esportivas (bets) e outro sobre pagamentos do extinto Banco Master para a produção do filme “Dark Horse”.

O ministro Alexandre de Moraes determinou a entrega dos passaportes brasileiro e italiano. O senador alegou perseguição política, viajou ao Equador e entrou nos EUA com documento italiano. Como o mandato vai até janeiro de 2027, o foro privilegiado mantém os processos na Suprema Corte, blindando-o de instâncias inferiores.

A reação institucional e o flanco judicial

Diante da pressão, o presidente Davi Alcolumbre prometeu analisar a questão de ordem de Randolfe “à luz dos regimentos”. A resposta deve definir se o voto de terça-feira vale e se a Mesa abrirá procedimento para apurar a conduta.

Paralelamente, uma ação popular protocolada em 31 de outubro na 6ª Vara Federal do Rio pede a interrupção imediata dos pagamentos. O advogado Leonardo Nicolau Passos Marinho, autor da ação, afirmou à reportagem que a participação remota não sana a irregularidade: “As regras da Casa são claras. Para se ausentar, os parlamentares têm que pedir licença prévia à Mesa Diretora. O que, até onde sabemos, não ocorreu”.

O que observar nas próximas 48 horas

Três movimentos ditarão o desfecho imediato: a manifestação formal de Alcolumbre sobre a validade do voto remoto; a eventual instauração de procedimento no Conselho de Ética; e a decisão liminar da Justiça Federal sobre o bloqueio dos subsídios.

Se o Senado confirmar que não houve licença, o parlamentar acumula faltas não justificadas. Se confirmar que houve, precisa explicar por que não tornou o ato público. Em qualquer cenário, a demora na resposta erosiona a autoridade do Regimento Interno e abre espaço para que outros parlamentares testem os limites da fiscalização remota — um risco de governança que o mercado não pode ignorar.