Dois prefeitos cancelaram a mesma dupla sertaneja em menos de 24 horas. A razão oficial foi “clima”, mas a motivação real expõe um jogo de poder que custa caro ao contribuinte.
A polêmica começou quando Jorge, da dupla Jorge & Mateus, apareceu ao lado de Flávio Bolsonaro dias antes do segundo turno. Em vídeo, cantou “Pode chorar” com letra alterada: “Não voto no PT”. A reação foi imediata.
O efeito dominó nas prefeituras
Victor Marques (PCdoB), prefeito do Recife, defendeu a pluralidade na terça-feira (3): “O réveillon cabe todo mundo”. Na quarta-feira (4), mudou o discurso e cancelou o show alegando “falta de clima para a apresentação”.
Evandro Leitão (PT), prefeito de Fortaleza, seguiu o mesmo caminho horas depois. Em Salvador, Bruno Reis (União Brasil) manteve a contratação no Festival Virada Salvador. ACM Neto, aliado de Flávio Bolsonaro, defendeu: “Prefeito não é dono do dinheiro público nem do voto de quem sobe no palco”.
O histórico que ninguém menciona
Boicotes políticos não são novidade nem monopólio de um lado. Em 2020, a CUT pediu boicote a Havan, Riachuelo, Madero, Coco Bambu, Smart Fit e Centauro por ligações com Bolsonaro. A Ypê foi alvo em 2022 por doação à campanha do ex-presidente.
Em 2023, Fernando Haddad defendeu a prática no Fórum Econômico Mundial: “Não compro nem um palito de fósforo sem compromisso democrático”. Em 2024, José Genoíno sugeriu boicote a “empresas de judeus” para criticar Israel. O ciclo se retroalimenta.
Quando o Estado vira curador cultural
O problema central não é o repertório de Jorge & Mateus. Desde os anos 80, prefeituras assumiram o papel de organizar festas populares, asfixiando a sociedade civil que antes as mantinha.
- Shows privados: ninguém questiona o gosto do contratante.
- Shows públicos: o governante da vez decide o que o povo “deve” consumir.
- Dinheiro do contribuinte: paga a conta, mas não escolhe a atração.
Showmícios foram proibidos há décadas. A lógica que os baniu vale para qualquer espetáculo custeado pelo erário com finalidade eleitoral ou ideológica.
O que observar daqui pra frente
Enquanto o poder público pagar a festa, o palco pertence a quem comanda a caneta — não ao artista, nem ao público. A polarização só aumenta a pressão para que prefeitos usem a programação cultural como extensão de palanque.
A solução não é trocar o artista vetado por outro “alinhado”. É tirar o Estado do papel de curador. Se a política transformou a celebração popular em réplica de comício, o problema não é o sertanejo. É o Estado achando que deve ser o dono da festa.
