Milton Maluhy, CEO do Itaú Unibanco, subiu o tom. Em evento fechado com empresários, o executivo deixou claro: sem definição clara sobre o próximo ministro da Fazenda e suas diretrizes, a volatilidade cambial e de juros não arrefece. A consequência imediata? A Selic travada em patamar restritivo por mais tempo.
Não é pedido de favor. É conta de chegada.
O que está em jogo para o seu bolso
A indefinição fiscal força o Banco Central a manter juros altos como única âncora de credibilidade. Cada ponto extra da Selic custa cerca de R$ 40 bilhões ao ano em serviço da dívida pública — recurso que sai de investimentos em infraestrutura, saúde e educação para pagar juros.
Para o setor privado, o custo de capital elevado trava expansões, adia IPOs e encarece o crédito para pessoa física e jurídica. Maluhy citou que o spread bancário médio no Brasil gira em torno de 30 pontos percentuais acima da Selic; com a taxa básica a 13,75%, o custo final ao tomador beira 44% ao ano.
O “novo” ministro e o sinal que o mercado espera
A troca no comando da Fazenda — seja ela qual for — precisa vir acompanhada de três sinais inequívocos, segundo o CEO do maior banco privado do país:
- Regra fiscal crível: meta de resultado primário com gatilhos automáticos de contenção;
- Reforma tributária sem “jabutis”: aprovação da PEC 45/2019 sem adendos que elevem a carga ou criem exceções setoriais;
- Compromisso com o arcabouço: veto a gastos obrigatórios não previstos no Orçamento.
Sem esse tripé, a curva de juros futuros (DI) continua precificando prêmio de risco de 300 a 400 pontos-base acima dos pares emergentes.
Grau de investimento: a régua que move capital externo
Maluhy foi direto: a reconquista do *investment grade* pelas três grandes agências (S&P, Moody’s, Fitch) não é vaidade. É porta de entrada para fundos de pensão e *wealth funds* globais que têm mandatos vedados a ativos *high yield*.
Hoje, o Brasil paga cerca de 2,5% a mais ao ano em *spread* soberano em relação a países com grau de investimento. Em uma dívida externa de US$ 240 bilhões, isso equivale a US$ 6 bilhões anuais — valor superior ao orçamento anual do Bolsa Família.
O que o varejo e o agronegócio têm a ver com isso
O executivo citou dois setores sensíveis. No varejo, a inadimplência de pessoas físicas atingiu 4,8% da carteira de crédito em agosto, maior nível desde 2016. No agro, o custo de financiamento da safra 2024/25 subiu 18% em relação ao ciclo anterior, pressionando margens já apertadas pela queda de commodities.
Se a Selic não cair, a rolagem dessas dívidas em 2025 vira risco sistêmico.
Cenários para os próximos 90 dias
O Itaú trabalha com três cenários-base, com probabilidades atualizadas na última reunião do Comitê de Risco:
- Base (55%): anúncio de ministro com perfil ortodoxo + arcabouço fiscal votado no 1º semestre → Selic inicia queda em março/25, chegando a 10,5% no fim do ano.
- Estresse (30%): indefinição política se arrasta + pressões por gastos extras → Selic mantida em 13,75% até setembro/25, com viés de alta.
- Otimista (15%): choque de credibilidade (ministro + reforma administrativa sinalizada) → Selic cai para 9,5% em dezembro/25 e grau de investimento volta no 1º tri/26.
O que observar daqui para frente
Três datas funcionam como termômetros: a sabatina do novo ministro no Senado (se houver indicação), a votação do arcabouço na Câmara e a reunião do Copom de janeiro. Se até lá o discurso fiscal não tiver virado lei, o mercado precificará juros altos por todo 2025 — e a conta, como sempre, será paga pelo crédito mais caro e investimento adiado.
Maluhy não fez previsão. Fez contabilidade. A bola está no campo político.
