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Senado vira democrata: o segredo que pode derrubar as tarifas de Trump sobre o Brasil

Senado dos EUA com maioria democrata e bandeira do Brasil em primeiro plano, simbolizando impacto nas tarifas de Trump
Mudança no Senado dos EUA cria cenário político hostil às tarifas de Trump sobre exportações brasileiras.

A vitória democrata no Senado não anula as tarifas atuais contra o Brasil amanhã, mas cria o cenário político mais hostil à política comercial de Trump desde 2016. O poder de investigação e pauta legislativa mudou de lado, e isso altera completamente o cálculo de risco para exportadores brasileiros.

Entender os próximos movimentos em Washington deixou de ser “análise política” e virou gestão de caixa para quem vende aço, alumínio, etanol ou serviços digitais para os EUA.

O que muda na prática a partir de janeiro

Ron Wyden, novo comandante do Comitê de Finanças, ganhou a caneta que define quais audiências acontecem, quais projetos avançam e quais investigações são abertas. Ele já avisou: a prioridade é “reafirmar a autoridade do Congresso” e “acabar com as tarifas desastrosas”.

Na prática, isso significa três frentes simultâneas de pressão sobre a Casa Branca:

  • Audiências públicas com setores prejudicados (incluindo importadores americanos que pagam a conta).
  • Investigações formais sobre a legalidade das tarifas via Seção 301 e Seção 232.
  • Projetos de lei exigindo aval do Congresso para novas tarifas unilaterais.

O mapa das tarifas que atingem o Brasil hoje

Não é uma taxa única. O Brasil carrega um “pacote” de sobretaxas que, somadas, alcançam 47,3% do valor exportado para os EUA, segundo o Ministério do Desenvolvimento. Veja a composição:

  • 25% (Seção 301): Retaliação a barreiras digitais (big techs), favorecimento ao Pix e restrições ao etanol.
  • 12,5% (Seção 301): Punição por suposto descumprimento de acordos contra trabalho forçado.
  • 25% aço / 10% alumínio (Seção 232): Justificativa de “segurança nacional”.

Todas essas alíquotas são administradas pelo USTR (Escritório de Comércio), órgão da Casa Branca que não passa pelo Congresso para agir. Esse é o nó jurídico que os democratas prometem desatar.

Por que o curto prazo ainda pertence a Trump

Especialistas ouvidos pela reportagem são unânimes: até 2025, Trump mantém o controle operacional. Ricardo Zúniga, ex-Conselho de Segurança Nacional, resume: “O USTR responde ao presidente. A delegação de poder ao Executivo já foi feita”.

Ou seja: não espere revogação imediata. O que muda é o custo político de manter as tarifas.

O caminho legislativo: difícil, mas real

Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, aponta a rota: o Congresso pode votar leis que retirem a discricionariedade do presidente. Já existem projetos pedindo autorização legislativa para acionar a Seção 301.

No ano passado, o Senado já aprovou medida considerando ilegais as tarifas contra o Brasil, com apoio de 5 republicanos. A Câmara travou. Agora, com as duas casas democratas, a tramitação anda — mas esbarra no veto presidencial.

Para derrubar o veto: 290 deputados e 67 senadores. Números altos, mas a inflação nos EUA tem transformado eleitores em lobistas contra tarifas. Republicanos de estados exportadores podem virar votos.

O trunfo que ninguém comenta: o Judiciário

Zúniga aposta em outra frente: ações judiciais. “O Congresso deu tanto poder ao Executivo que terá de recorrer aos tribunais para recuperar o papel constitucional”, diz. Processos questionando a amplitude da Seção 232 (segurança nacional) já existem e ganham fôlego com maioria democrata no Senado referendando a tese.

O que observar daqui para a frente

Três sinais concretos dirão se a pressão vira resultado:

  1. Calendário de audiências no Comitê de Finanças nas primeiras 100 dias.
  2. Adesão republicana a projetos de “tarifa zero” setoriais (aço, agronegócio).
  3. Decisões liminares em cortes federais suspensas a aplicação de Seção 232.

Enquanto isso, o Itamaraty e o MDIC ganham novos interlocutores em Washington — senadores e deputados com poder real de pauta. Para o empresário brasileiro, a lição é clara: monitore o Congresso americano com a mesma atenção que dedica à Casa Branca. A guerra comercial migrou de endereço.