Tecnologia

Jovem de 18 anos revoluciona monitoramento de água com IA e impressão 3D

Um estudante de Brasília desenvolveu um equipamento de baixo custo capaz de identificar microplásticos invisíveis a olho nu, abrindo caminho para o monitoramento em larga escala de reservatórios estratégicos. A tecnologia combina inteligência artificial, impressão 3D e ciência cidadã. O resultado pode mudar a forma como gestores públicos e empresas lidam com a qualidade da água no Brasil.

Da bancada escolar para o reservatório estratégico

Tom Silva Nunes, hoje com 18 anos, dedicou os últimos dois anos ao problema dos microplásticos. Aluno do ensino médio, ele percebeu que a detecção tradicional exigia laboratórios caros e processos lentos. A resposta veio na forma de uma caixa compacta, fabricada em impressora 3D, equipada com lentes ópticas e iluminação LED controlada.

O dispositivo utiliza o corante Rodamina B para fluorescer partículas de isopor (EPS) em amostras líquidas. O grande salto, porém, está no software: um modelo de visão computacional treinado com mais de 2.000 imagens de micropartículas. O algoritmo distingue plástico de matéria orgânica, delimita a área contaminada e estima o tamanho de cada fragmento em segundos.

Por que isso importa para quem gere recursos hídricos

O Lago Paranoá, campo de testes do projeto, não é apenas um cartão-postal. Ele recebe drenagem de diversas regiões do Distrito Federal e integra o sistema de abastecimento humano. A presença de microplásticos indica falhas na gestão de resíduos a montante e riscos potenciais à saúde pública e ao tratamento de água.

A engenheira ambiental Beatriz Barcelos, da Universidade Católica de Brasília, destaca que a geração de dados geoespaciais permite direcionar investimentos. Em vez de ações genéricas, o poder público pode instalar barreiras de contenção e planejar mutirões exatamente nos pontos críticos identificados.

Ciência cidadã como multiplicadora de dados

A inovação não parou no hardware. Durante as coletas, Tom percebeu a capilaridade necessária para monitorar um espelho d’água de 38 km². Nasceu assim a plataforma “Isopor no Paranoá”, um mapa colaborativo dividido em nove setores.

  • Cinco regiões já mapeadas até a apresentação do projeto;
  • Registro simples: local, tamanho aparente do resíduo e foto;
  • Sem necessidade de equipamento técnico para participação.

Essa camada de dados volumétricos, alimentada por frequentadores do lago, alimenta o treinamento contínuo da IA e pressiona por respostas institucionais mais rápidas.

Validação científica e próximos passos

O trabalho foi destaque na 14ª Feira Brasileira de Iniciação Científica (Febrace) e figura entre os pré-selecionados do 32º Prêmio Jovem Cientista (CNPq), com resultado esperado para novembro de 2026. O reconhecimento sinaliza maturidade técnica rara para a idade do inventor.

Mas o foco de Tom segue pragmático: escalar a solução. A arquitetura aberta do equipamento e a gratuidade da plataforma permitem replicação em outros mananciais, desde que haja parceria com universidades ou secretarias de meio ambiente para validação local.

O que observar daqui para frente

A convergência entre hardware de baixo custo, IA embarcada e engajamento social desenha um novo paradigma para monitoramento ambiental. Para investidores e gestores, o caso demonstra que a barreira de entrada para vigilância hídrica de qualidade caiu drasticamente. Acompanhar a adoção dessa tecnologia por órgãos reguladores e concessionárias de saneamento será o termômetro real de sua viabilidade comercial e impacto sistêmico.