Economia

Itaú pressiona governo: “Sem previsibilidade fiscal, juros não caem de forma sustentável”

Milton Maluhy, presidente do Itaú Unibanco, discursa em evento para investidores sobre política fiscal e juros
Milton Maluhy alerta: sem previsibilidade fiscal, queda da Selic não se sustenta.

O presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy, foi direto ao ponto: a escolha do novo ministro da Fazenda e a sinalização clara de suas diretrizes são condições indispensáveis para acalmar os mercados e viabilizar um ciclo de queda consistente da Selic. A fala ocorre em momento de expectativa intensa sobre a equipe econômica do terceiro mandato de Lula.

O recado foi dado em evento fechado com investidores. Maluhy não fez rodeios: a volatilidade cambial e de juros longos reflete, acima de tudo, a incerteza sobre o rumo das contas públicas.

O que está em jogo para o custo de capital

Para o executivo, a equação é simples. Sem âncora fiscal crível, o Banco Central mantém a taxa básica elevada por mais tempo. Isso encarece o crédito para empresas e famílias, freia investimentos produtivos e pressiona a dívida pública.

Maluhy citou números internos do banco: a cada 1 ponto percentual de aumento na taxa de juros real de equilíbrio, o spread bancário médio sobe entre 0,3 e 0,5 p.p. O impacto recai diretamente sobre o custo de capital de giro e alongamento de dívidas das companhias.

Grau de investimento: meta declarada

A reconquista do grau de investimento — perdido pelo Brasil em 2015 (S&P) e 2016 (Fitch/Moody’s) — foi tratada como objetivo estratégico, não apenas simbólico. O selo de “bom pagador” reduz o prêmio de risco soberano em 150 a 200 pontos-base, segundo estimativas de mercado.

Isso se traduz em:

  • Menor custo de emissão de dívida externa para o Tesouro e empresas
  • Fluxo de capital de longo prazo (fundos de pensão, soberanos)
  • Redução estrutural do spread soberano nos contratos de derivativos

Mas Maluhy foi realista: “Não há atalho. O caminho passa por regras fiscais transparentes, cumpridas e comunicadas com antecedência.”

O efeito nos balanços dos bancos — e no seu negócio

O Itaú encerrou o terceiro trimestre com carteira de crédito ampliada de R$ 1,2 trilhão. A inadimplência acima de 90 dias ficou em 3,2%, estável ante o trimestre anterior. O lucro recorrente somou R$ 9,3 bilhões.

Esses números mostram resiliência, mas o CEO alertou: a qualidade do ativo deteriora-se rápido quando a atividade econômica esfria por juros altos prolongados. Setores sensíveis — varejo, construção, serviços — são os primeiros a sentir.

Para o empresário que lê esta reportagem, a mensagem prática é: planeje seu endividamento assumindo Selic em dois dígitos até haver clareza fiscal. Cenários otimistas de queda rápida para 9% ao ano dependem de anúncios concretos nas próximas semanas.

O que observar daqui para frente

Três marcos definirão se a previsibilidade pedida por Maluhy se materializa:

  1. Nome do ministro da Fazenda — e se terá autonomia política para desenhar o arcabouço
  2. Regra fiscal a ser apresentada — meta de resultado primário, teto de gastos ou novo mecanismo
  3. Reação do Congresso — velocidade de aprovação e grau de desidratação da proposta original

Enquanto esses pontos não se esclarecem, o prêmio de risco segue embutido nas curvas de juros futuros. O dólar oscila acima de R$ 5,00 não por fundamentos de balanço de pagamentos, mas por desconforto com a trajetória da dívida/PIB.

Maluhy encerrou sua fala sem promessas, apenas com um diagnóstico: “O setor privado está pronto para investir. Falta a sinalização de que o Estado fará a lição de casa.” Quem decide alocação de capital hoje faz bem em monitorar não apenas a Selic, mas a credibilidade do compromisso fiscal que virá — ou não — nas próximas semanas.