A brasileira Taís Magno, de 27 anos, acordou numa terça-feira sem acesso a um centavo do próprio salário. O aplicativo do Ueno Bank, onde mantinha a conta corrente e investimentos, simplesmente parou de funcionar. Horas antes, o Banco Central do Paraguai havia decretado intervenção na instituição, maior emissora de cartões de crédito do país, após o índice de solvência despencar para menos da metade do mínimo regulatório.
Ela não está sozinha. Cerca de 3 milhões de clientes — pessoa física e jurídica — viram o dinheiro evaporar da noite para o dia. A crise derrubou até o presidente Santiago Peña, que renunciou ao cargo de diretor do banco em meio ao turbilhão. Para o investidor ou empresário que opera na região, o caso escancara uma fragilidade sistêmica que vai além de um balanço ruim.
O dia em que o “cashback generoso” virou armadilha
Taís escolheu o Ueno Bank há três anos atraída por benefícios agressivos: reembolsos que chegavam a 50% nas faturas do cartão. Na prática, o modelo funcionava enquanto havia liquidez para sustentar a farra promocional. Quando a revisão contábil expôs o buraco patrimonial, a torneira fechou.
O impacto foi imediato e brutal:
- Estudantes sem dinheiro para transporte e alimentação no dia seguinte.
- Vizinha com salário recém-depositado travado — aluguel, água e energia em atraso.
- Amiga que investiu US$ 1.000 dias antes da intervenção, por indicação da própria Taís.
Relatos de desespero se multiplicaram nas filas das agências e nas redes sociais. A sensação de impotência é o denominador comum: o dinheiro existe no sistema, mas o sistema travou.
Garantia de depósito: prazo legal vs. realidade operacional
A legislação paraguaia prevê pagamento do Fundo de Garantia de Depósitos em até 15 dias corridos após a resolução da instituição, prorrogáveis por mais 15 mediante decisão fundamentada do Banco Central. Na prática, a transferência dos ativos para outro banco habilitado pode levar de 15 a 30 dias, segundo informações repassadas aos clientes.
Enquanto o processo burocrático corre, Taís precisou acionar o cartão de crédito brasileiro — arcando com IOF de 5,38% nas compras internacionais — para manter as contas em dia. Tentou abrir conta em cinco bancos locais diferentes; só conseguiu na sexta tentativa. A corrida por novas contas saturou o atendimento das instituições concorrentes.
Por que a solvência caiu pela metade?
O gatilho técnico foi a revisão dos balanços que revelou capital regulatório insuficiente. O índice de solvência — termômetro da capacidade de honrar compromissos — despencou abaixo de 50% do piso exigido. Em termos práticos: para cada R$ 100 de risco, o banco tinha menos de R$ 50 de colchão. O restante era alavancagem e expectativa de receitas futuras que não se materializaram.
O Ueno não era um banco pequeno. Líder em emissão de cartões, detinha fatia relevante do varejo financeiro paraguaio. A intervenção do Banco Central visa evitar contágio, mas o abalo na confiança já é um fato consumado.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o desfecho para correntistas e para o mercado:
- Velocidade da migração de ativos: se a transferência para o banco receptor ocorrer no piso dos 15 dias, o dano se limita a perda de tempo e custos de IOF. Se alongar para 30 dias, pequenos negócios e famílias de renda baixa entram em inadimplência cascata.
- Reação dos depositantes: a corrida por abertura de contas em concorrentes sinaliza fuga de qualidade. Bancos médios paraguaios podem ganhar market share, mas precisam absorver o volume sem relaxar compliance.
- Revisão regulatória: o caso deve forçar o Banco Central a endurecer regras de capital para bancos digitais com modelos baseados em cashback agressivo. Quem opera na região deve monitorar novas circulares sobre exigência de liquidez imediata.
Taís resume o sentimento de quem vive no país há cinco anos e escolheu o Paraguai pela carga tributária baixa e acesso a crédito imobiliário: “é um país muito bom passando por um momento delicado”. A frase sintetiza o risco-país: fundamentos atrativos não blindam contra falhas de governança pontuais. Para o investidor, a lição fica clara — diversificação bancária não é luxo, é seguro de vida financeira.
