Cultura

Shows cancelados por voto: o risco político que atinge contratos públicos

Dupla sertaneja Jorge e Mateus no palco durante show, com público ao fundo
Jorge e Mateus tiveram shows cancelados em Recife e Fortaleza após declaração política.

As prefeituras de Recife e Fortaleza cancelaram os shows de Jorge e Mateus nas festas de fim de ano após a dupla declarar apoio a Flávio Bolsonaro. A decisão expõe um padrão: contratos públicos podem ser revogados por alinhamento político, não por cláusulas técnicas.

O prefeito do Recife, Victor Marques (PCdoB), afirmou que “não há mais clima” para a apresentação. A eleição terminou dez dias antes; o evento ocorreria em dezembro. Não há disputa eleitoral em curso — apenas a consequência de uma escolha partidária.

O que a Constituição diz e o que a prática mostra

O artigo 5º da Constituição proíbe privação de direitos por convicção filosófica ou política. A regra vale para todos. Na prática, porém, o poder de caneta atinge quem está do lado oposto ao gestor local.

As prefeituras alegaram que os cachês viriam de parceiros privados, sem revelar nomes nem valores. A falta de transparência impede saber se houve quebra contratual ou apenas veto político disfarçado.

Dois pesos, duas medidas: o boicote privado versus o estatal

Em cidades de Santa Catarina, listas de WhatsApp circularam com nomes de comerciantes que votaram em Lula. Eram pessoas físicas exercendo escolha de consumo — sem cargo, verba ou poder de Estado. A reação incluiu:

  • Deputados do PT acionando PGR, PF e MPT
  • OAB e Abrasel publicando notas de repúdio
  • Sebrae criando protocolo de atendimento
  • Comparações com a “Noite dos Cristais” nazista

Nenhuma vitrine foi quebrada. Nenhum comerciante foi impedido por lei de trabalhar. O boicote era individual, voluntário, sem dinheiro público.

O caso Sleeping Giants: quando o boicote vira indústria

Entre 2020 e 2022, o Sleeping Giants Brasil pressionou anunciantes a cortarem verbas de veículos de direita. Relatório da própria organização aponta:

  • Mais de R$ 203 milhões em publicidade retirada
  • Jovem Pan perdeu R$ 22 milhões em 149 dias
  • Open Society (George Soros) aportou US$ 1,6 milhão ao grupo

A Abert, que representa 3 mil emissoras, classificou o método como “inequívoca ação de intimidação”. A cofundadora foi convidada para seminário no STF; o outro cofundador nomeado para o Conselhão de Lula. A Secom chamou o grupo de “inspiração”.

O precedente de 2014 que ninguém cita

O site oficial do PT publicou lista de jornalistas e humoristas rotulados como “pitbulls da grande mídia”. Era o partido no governo nomeando críticos nominalmente. Nenhuma entidade comparou à Gestapo.

Na prática: quem perde emprego, contrato ou anunciante por ser de esquerda? Estar alinhado ao poder continua sendo fator de proteção econômica.

O que observar daqui para frente

Com Lula alinhado à maioria do STF, universidades, imprensa mainstream, ONGs e entidades civis — e, potencialmente, a presidência do Senado — a concentração de poder institucional é inédita. O risco para contratos públicos, licitações e patrocínios culturais deixa de ser hipotético.

Empresários e gestores de marca devem mapear: cláusulas de rescisão por “conveniência administrativa” em contratos de eventos; histórico do gestor local em decisões similares; e diversificação de canais de receita para não depender de verbas municipais ou estaduais sensíveis a ciclos eleitorais.

A eleição passou. A influência sobre o orçamento público, não.