A Secretaria do Patrimônio da União (SPU) detectou indícios graves de irregularidade na cessão de uma mansão de luxo na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, para uma empresa do advogado Willer Tomaz. O imóvel é alvo de uma batalha judicial que envolve o atacante Richarlison e cita o senador Flávio Bolsonaro. A suspeita central recai sobre a velocidade atípica do processo administrativo e a emissão manual de um documento essencial.
O caso ganhou contornos de investigação federal após a atual gestão da SPU encaminhar o expediente à Controladoria-Geral da União (CGU) e à Polícia Federal. O que começou como uma disputa de regularização fundiária expõe agora falhas procedimentais que podem anular a transferência e atingir outros ativos do advogado na região.
A transferência que durou 100 minutos
O cronograma oficial chama a atenção pela celeridade incomum para padrões burocráticos da União. A empresa vendedora protocolou o pedido de Certidão de Autorização para Transferência (CAT) às 11h33 do dia 11 de julho de 2022. Às 13h13 do mesmo dia, o documento já estava emitido.
No requerimento, a solicitante alegou “urgência” e informou uma suposta falha no sistema eletrônico para justificar a emissão manual da certidão. Para técnicos da área, a combinação de prazo exíguo e procedimento excepcional — sem o rastro digital padrão — configura um desvio de rota que exige explicação formal.
O elo perdido: decisão judicial fora do processo
Além da rapidez, a SPU apontou uma lacuna documental crítica. A autorização para a transferência baseou-se em uma decisão judicial que, segundo o órgão, não foi anexada integralmente ao processo administrativo.
Sem o inteiro teor da sentença no arquivo da União, torna-se impossível verificar se a determinação judicial de fato amparava a transmissão da posse ou se houve extrapolação de competência. Essa ausência é um dos pilares do encaminhamento à CGU e à PF.
Disputa bilionária: Richarlison vs. Willer Tomaz
A origem do imbróglio remonta a 2020. O jogador Richarlison afirma ter adquirido a propriedade — que possui cachoeira particular — por R$ 10 milhões de antigos ocupantes da ilha. A regularização foi pedida à SPU em setembro de 2021 via Sport 70, empresa do atleta, mas não foi concluída.
Foi nessa janela de indefinição que Willer Tomaz entrou em cena. O advogado sustenta que os antigos moradores não detinham a titularidade do imóvel e que comprou a mansão de uma empresa que já possuía o registro formal. A autorização para a WT Administração saiu em julho de 2022, meses após o pedido do jogador.
Acusações de conluio e o fator Flávio Bolsonaro
Richarlison acusa o advogado e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de articularam a retirada de seus direitos após sua recusa em vender a mansão ao parlamentar. A versão do atleta coloca a disputa no campo da pressão política sobre a máquina pública.
- Valor declarado da compra pelo jogador: R$ 10 milhões (2020).
- Data do pedido de regularização do atleta: 20/09/2021.
- Emissão da CAT para Willer Tomaz: 11/07/2022 (manual, em 1h40min).
- Órgãos acionados: CGU, Polícia Federal e Ibama.
Padrão de aquisições e crimes ambientais
A investigação não se restringe a este imóvel. Reportagens recentes revelaram que Willer Tomaz possui outras cinco casas em ilhas de Angra dos Reis, a maioria adquirida entre 2021 e 2022 — mesmo período da negociação contestada.
A SPU também acionou o Ibama para apurar denúncias de crimes ambientais na Ilha Comprida. A área é de preservação permanente, e qualquer intervenção sem licenciamento rigoroso configura infração grave, o que pode gerar multas pesadas e embargo das construções, independentemente da titularidade.
O que observar daqui para frente
O desfecho depende agora da análise técnica da CGU e do inquérito da Polícia Federal. Se confirmada a irregularidade na emissão da CAT, a transferência para a WT Administração pode ser anulada administrativamente, reabrindo o caminho para a regularização pleiteada por Richarlison — ou para a retenção do bem pela União.
Para investidores e operadores do mercado imobiliário de alto padrão, o caso acende um alerta: a regularização fundiária em áreas de marinha e ilhas exige rastreabilidade documental impecável. Processos “acelerados” sem lastro digital completo tornam-se passivos jurídicos de alto risco, capazes de derrubar escrituras e gerar responsabilização civil e penal de todos os envolvidos na cadeia.
