A Sabesp, privatizada em julho de 2024, formalizou no Cade a venda de parte de seu portfólio imobiliário para a Cyrela, mas os endereços e o valor total seguem blindados por confidencialidade. O mercado, no entanto, já aposta suas fichas: um terreno cobiçado nos Jardins, avaliado em até R$ 215 milhões, pode ser a peça-chave desse quebra-cabeça.
O que o documento no Cade revela — e o que esconde
O requerimento enviado ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica confirma o interesse da incorporadora de alto padrão em desenvolver empreendimentos na capital paulista. A Cyrela classifica a operação como “intrínseca ao cotidiano de uma incorporadora”, mas não detalha a metragem nem a localização dos ativos.
Procuradas, ambas as empresas optaram pelo silêncio. Essa falta de transparência abre espaço para especulações, mas também sinaliza uma estratégia clara: a nova Sabesp privada começa a transformar ativos ociosos em caixa, enquanto a Cyrela reforça seu banco de terrenos em áreas nobres.
A joia da coroa: último grande terreno dos Jardins
Entre os imóveis colocados à venda pela Sabesp no início do ano, um se destaca pela localização e pelo apetite que gerou. Fica na esquina da Alameda Ministro Rocha Azevedo com a Rua Barão de Capanema, a poucos metros da Oscar Freire.
Consultores do setor ouvidos pela reportagem estimam que dez incorporadoras analisaram o ativo. A Trisul chegou a sentar à mesa para negociar, mas o leque de interessados era amplo, o que costuma elevar o preço final.
Os números que explicam a disputa
As propostas pelo terreno dos Jardins giraram em torno de um intervalo estreito, mas expressivo, refletindo a escassez de grandes glebas na região:
- Valor do metro quadrado: entre R$ 50 mil e R$ 70 mil.
- Valor total estimado: entre R$ 154 milhões e R$ 215 milhões.
Apesar da força dos indícios, não há confirmação oficial de que esse específico endereço faça parte do pacote vendido à Cyrela. O processo no Cade não lista os imóveis, mantendo a incógnita aberta.
Impacto direto: liquidez para a estatal, estoque para a incorporadora
Para a Sabesp, a venda insere-se no mandato pós-privatização de otimização de capital. Imóveis não operacionais — como terrenos e prédios administrativos — viram moeda de troca para reduzir alavancagem ou financiar investimentos em saneamento.
Do lado da Cyrela, a aquisição alimenta o pipeline de lançamentos de alta renda, segmento que tem demonstrado resiliência mesmo em cenários de juros elevados. A incorporadora ganha tempo de desenvolvimento em uma área onde comprar terra nova é praticamente impossível.
O que observar daqui para frente
O próximo gatilho será a análise do Cade. A aprovação sem restrições tende a ser rápida, dada a ausência de sobreposição de mercados entre saneamento e incorporação. O investidor deve ficar atento a dois movimentos:
- Divulgação do portfólio vendido: assim que a confidencialidade cair, saberemos se a Sabesp vendeu apenas “joias” ou incluiu ativos de menor liquidez no pacote.
- Novas rodadas de vendas: a companhia de saneamento possui extenso patrimônio imobiliário. Essa pode ser apenas a primeira de uma série de transações para monetizar ativos não essenciais.
Enquanto o contrato não se torna público, a valorização do metro quadrado nos Jardins serve de termômetro: a disputa acirrada pelo terreno da Rocha Azevedo mostra que, para o alto padrão paulistano, a escassez de terra continua ditando os preços — independentemente de quem seja o vendedor.
