Os democratas assumiram o controle das duas câmaras do Congresso dos EUA e, com isso, ganharam o poder de veto orçamentário sobre a ambiciosa agenda de Donald Trump para a América Latina. A chamada Doutrina Donroe — renomeação da clássica Doutrina Monroe focada em combater crime organizado, imigração irregular e a influência chinesa — depende agora de verbas e nomeações que precisam passar pelo crivo dos novos presidentes de comitês.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que as partes mais radicais do plano tendem a ser contidas, mas o presidente não deve abandonar suas prioridades. O cenário que se desenha é de confronto institucional intenso nos próximos meses.
O poder da caneta: orçamento e supervisão
A mudança mais imediata vem do controle da Câmara dos Representantes, onde nascem todos os projetos de gastos federais. Douglas Farah, presidente da consultoria IBI, resume: a maioria democrata permite convocar testemunhas, abrir investigações e, crucialmente, cortar verbas do Pentágono e do Departamento de Estado.
Robert Garcia, novo chefe do Comitê de Supervisão, foi direto ao ponto ao avisar a ala republicana e a família Trump: “Procurem um advogado”. Rebecca Bill Chávez, do Diálogo Interamericano, complementa que o escrutínio será muito maior, mesmo que a estratégia da Casa Branca não mude.
Venezuela: petróleo, sanções e 350 mil vidas em jogo
O epicentro da tensão é a Venezuela. Em agosto, Trump anunciou um acordo “histórico” permitindo que a North American Blue Energy Partners (Nabep) explore petróleo bruto no país. O detalhe sensível: o Pentágono controlaria 35% da empresa privada.
A reação democrata foi rápida e em duas frentes:
- Legislação: Pelo menos dois projetos de lei buscam bloquear investimentos públicos na empreitada e vedar intervenção direta em assuntos internos venezuelanos.
- Fiscalização: O senador Jack Reed exigiu explicações formais; audiências nos comitês de Relações Exteriores e Defesa são dadas como certas.
Paralelamente, a situação humanitária pressiona deputados de ambos os lados. Debbie Wasserman Schultz (democrata) e María Elvira Salazar (republicana, reeleita na Flórida) tentam reverter o fim do status de proteção temporária (TPS) para venezuelanos. A Suprema Corte validou o cancelamento, mas a batalha política continua. Para os cerca de 350 mil haitianos sob o mesmo programa, a perspectiva é ainda mais crítica.
Cuba: resolução de poderes de guerra e mísseis no Caribe
Se na Venezuela o choque é econômico, em Cuba ele é militar. A ala progressista democrata, liderada por Gregory Meeks e Joaquín Castro, apresentou em maio uma “resolução de poderes de guerra” para proibir qualquer ação armada na ilha sem aval do Congresso.
O alerta não é teórico. Trump já declarou publicamente a intenção de “dar uma passada” pela costa cubana após resolver a questão do Irã. Em setembro de 2025, o Pentágono disparou mísseis contra supostas narcolanchas no Caribe e no Pacífico. Cinco deputados democratas exigiram explicações imediatas ao secretário Pete Hegseth, que respondeu com documentos classificados e justificativas legais extensas.
O bloqueio de verbas para o Pentágono — tática já testada pelos democratas contra a guerra no Irã — surge como a principal arma para conter aventuras militares não autorizadas.
Efeito dominó: Colômbia, El Salvador e a redefinição de alianças
A lupa do Congresso não se limita a adversários. Aliados tradicionais terão contratos revistos. A Colômbia pressiona pela retomada integral do financiamento antidrogas, enquanto o acordo de El Salvador para acolher deportados — assinado sob a gestão Trump — será “minuciosamente examinado”, nas palavras de assessores democratas.
Essa revisão sinaliza uma mudança de paradigma: a ajuda externa e acordos de segurança deixarão de ser cheques em branco para se tornarem moedas de barganha política interna.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o ritmo da relação EUA-América Latina nos próximos ciclos: a capacidade dos democratas de manter a unidade entre moderados e progressistas nas votações de orçamento; a disposição de republicanos dissidentes em cruzar o corredor em temas sensíveis como Venezuela e migração; e, por fim, a reação de Trump a investigações que podem atingir diretamente seus interesses empresariais na região. O xadrez geopolítico mudou de tabuleiro; agora, cada lance passa pelo Congresso.
