O Ibovespa afundou 18% e o dólar disparou 9% na semana seguinte à eleição, mas o sinal mais forte de alerta não está nas telas de cotação. Gestores e conselhos de administração colocaram silenciosamente novos projetos na geladeira, aguardando a definição da equipe econômica e das regras fiscais do quarto mandato Lula.
Não há estatística oficial para medir a paralisia em dias, mas a unanimidade entre banqueiros, consultores e estrategistas ouvidos pela reportagem é rara: o “piloto automático” virou regra para quem depende de crédito de longo prazo.
O que travou a máquina de investimentos
Ricardo Lacerda, CEO do BR Partners, resume o clima nos boardrooms: “No dia a dia a operação roda, mas expansão e novos projetos, principalmente os que precisam de financiamento, pararam tudo”. A expectativa concentra-se em dois nomes: o futuro ministro da Fazenda e o desenho do arcabouço fiscal que substituirá o teto de gastos.
Cláudio Frischtak, da Inter.B, nota que a reação varia por setor. Quem olha horizonte de 20 anos — infraestrutura, energia — costuma comprar na baixa. Ainda assim, ele alerta: juros reais nas alturas tornam inviável projetos que fariam sentido com custo de capital menor.
A conta que não fecha
O otimismo estrutural existe. Axel Christensen, do BlackRock, lista ativos que tornam o Brasil único: energia verde, terras raras, agronegócio de ponta, inovação financeira e um mercado consumidor de 215 milhões de pessoas. “Oportunidades não são garantia de sucesso. Para se concretizarem, é preciso execução”, diz. E execução exige previsibilidade — justamente o que falta hoje.
João Machado, da S&P Global, frisou em evento para investidores de ETFs: o mercado vigiará não só o anúncio das medidas, mas a implementação efetiva.
Cenário mais duro que em 2015
Especialistas concordam: a combinação atual é inédita. Juntam-se juros altos, dívida elevada, crescimento desacelerando e choques de oferta (petróleo, El Niño nos alimentos, reforma tributária, fim da escala 6×1).
- Promessas de campanha: R$ 40 bi a R$ 50 bi a mais em despesas até 2027, segundo a IFI do Senado.
- Dívida bruta: saltou de 56% do PIB (2014) para 82,9% em setembro (pico de 86,9% na pandemia).
- Déficit primário Jan-Set: R$ 90,2 bi (gasto subiu 5,4% real; receita, 6,5%).
- Selic real: ~8,8% ao ano (era 5% em 2014).
- Títulos atrelados à Selic: 51,6% do estoque — cada alta de juros explode o custo da dívida.
Gabriel Barros, da ARX, compara ao biênio 2015-16 (recessão de 6,7%): “Não é ideologia, é matemática”.
O bolso das famílias e das empresas
O juro alto não é abstrato. Em agosto, 82% das famílias estavam endividadas — recorde histórico. No mesmo mês, 9,3 milhões de CNPJs negativados somavam R$ 244,4 bi em dívidas atrasadas (Serasa).
O crédito caro já empurrou varejistas como Casas Bahia, Marabraz e Tok&Stok para recuperação judicial, e forçou Raízen e Braskem a recorrerem a recuperações extrajudiciais.
Velocidade da dívida assusta até os otimistas
Solange Srour, do UBS GWM, aponta o dado mais preocupante: a dívida/PIB subia 1 a 1,5 ponto por ano historicamente. No ritmo atual, a projeção supera 4 pontos ao ano. Isso força investidores a exigir prêmios de risco maiores para rolar a dívida, alimentando círculo vicioso.
“A economia já desacelera. Se nada for feito, podemos ir para recessão”, resume.
Vozes à esquerda também cobram ajuste
Nelson Marconi, economista que assessorou campanhas de Ciro Gomes, propõe suavizar a regra de reajuste do salário mínimo e reformar a Previdência para as próximas gerações. “A campanha não discutiu propostas. Enquanto o cenário ruim persistir, investidores e empresários esperam. Tudo depende de Lula. O governo não deu sinal de mudança, mas precisa mudar logo.”
O que observar nas próximas semanas
Três sinais dirão se o “piloto automático” vira expansão ou estagnação prolongada: (1) nome e autonomia do ministro da Fazenda; (2) clareza da nova regra fiscal — meta de resultado primário, gatilhos de contingenciamento, trajetória de dívida/PIB; (3) velocidade de execução das primeiras medidas, não apenas anúncios.
Enquanto esses pontos ficam no campo das especulações, o custo de oportunidade de manter projetos parados sobe a cada dia de Selic a 13,75%.
