Economia

O silêncio perigoso: por que empresas travaram R$ 1,9 tri em decisões

Gráfico mostra queda do Ibovespa e alta do dólar após eleição, simbolizando paralisia de R$ 1,9 tri em investimentos no Brasil
Mercado financeiro travou R$ 1,9 trilhão aguardando definição fiscal do novo governo Lula.

O Ibovespa afundou 18% e o dólar disparou 9% na semana seguinte à eleição, mas o sinal mais forte de alerta não está nas telas de cotação. Gestores e conselhos de administração colocaram silenciosamente novos projetos na geladeira, aguardando a definição da equipe econômica e das regras fiscais do quarto mandato Lula.

Não há estatística oficial para medir a paralisia em dias, mas a unanimidade entre banqueiros, consultores e estrategistas ouvidos pela reportagem é rara: o “piloto automático” virou regra para quem depende de crédito de longo prazo.

O que travou a máquina de investimentos

Ricardo Lacerda, CEO do BR Partners, resume o clima nos boardrooms: “No dia a dia a operação roda, mas expansão e novos projetos, principalmente os que precisam de financiamento, pararam tudo”. A expectativa concentra-se em dois nomes: o futuro ministro da Fazenda e o desenho do arcabouço fiscal que substituirá o teto de gastos.

Cláudio Frischtak, da Inter.B, nota que a reação varia por setor. Quem olha horizonte de 20 anos — infraestrutura, energia — costuma comprar na baixa. Ainda assim, ele alerta: juros reais nas alturas tornam inviável projetos que fariam sentido com custo de capital menor.

A conta que não fecha

O otimismo estrutural existe. Axel Christensen, do BlackRock, lista ativos que tornam o Brasil único: energia verde, terras raras, agronegócio de ponta, inovação financeira e um mercado consumidor de 215 milhões de pessoas. “Oportunidades não são garantia de sucesso. Para se concretizarem, é preciso execução”, diz. E execução exige previsibilidade — justamente o que falta hoje.

João Machado, da S&P Global, frisou em evento para investidores de ETFs: o mercado vigiará não só o anúncio das medidas, mas a implementação efetiva.

Cenário mais duro que em 2015

Especialistas concordam: a combinação atual é inédita. Juntam-se juros altos, dívida elevada, crescimento desacelerando e choques de oferta (petróleo, El Niño nos alimentos, reforma tributária, fim da escala 6×1).

  • Promessas de campanha: R$ 40 bi a R$ 50 bi a mais em despesas até 2027, segundo a IFI do Senado.
  • Dívida bruta: saltou de 56% do PIB (2014) para 82,9% em setembro (pico de 86,9% na pandemia).
  • Déficit primário Jan-Set: R$ 90,2 bi (gasto subiu 5,4% real; receita, 6,5%).
  • Selic real: ~8,8% ao ano (era 5% em 2014).
  • Títulos atrelados à Selic: 51,6% do estoque — cada alta de juros explode o custo da dívida.

Gabriel Barros, da ARX, compara ao biênio 2015-16 (recessão de 6,7%): “Não é ideologia, é matemática”.

O bolso das famílias e das empresas

O juro alto não é abstrato. Em agosto, 82% das famílias estavam endividadas — recorde histórico. No mesmo mês, 9,3 milhões de CNPJs negativados somavam R$ 244,4 bi em dívidas atrasadas (Serasa).

O crédito caro já empurrou varejistas como Casas Bahia, Marabraz e Tok&Stok para recuperação judicial, e forçou Raízen e Braskem a recorrerem a recuperações extrajudiciais.

Velocidade da dívida assusta até os otimistas

Solange Srour, do UBS GWM, aponta o dado mais preocupante: a dívida/PIB subia 1 a 1,5 ponto por ano historicamente. No ritmo atual, a projeção supera 4 pontos ao ano. Isso força investidores a exigir prêmios de risco maiores para rolar a dívida, alimentando círculo vicioso.

“A economia já desacelera. Se nada for feito, podemos ir para recessão”, resume.

Vozes à esquerda também cobram ajuste

Nelson Marconi, economista que assessorou campanhas de Ciro Gomes, propõe suavizar a regra de reajuste do salário mínimo e reformar a Previdência para as próximas gerações. “A campanha não discutiu propostas. Enquanto o cenário ruim persistir, investidores e empresários esperam. Tudo depende de Lula. O governo não deu sinal de mudança, mas precisa mudar logo.”

O que observar nas próximas semanas

Três sinais dirão se o “piloto automático” vira expansão ou estagnação prolongada: (1) nome e autonomia do ministro da Fazenda; (2) clareza da nova regra fiscal — meta de resultado primário, gatilhos de contingenciamento, trajetória de dívida/PIB; (3) velocidade de execução das primeiras medidas, não apenas anúncios.

Enquanto esses pontos ficam no campo das especulações, o custo de oportunidade de manter projetos parados sobe a cada dia de Selic a 13,75%.