O Copom deve anunciar a interrupção do ciclo de cortes da Selic na quarta-feira (4), mantendo a taxa em 13,75% ao ano. A decisão quebraria uma sequência de seis reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual. O que mudou nas últimas semanas para forçar essa guinada?
A resposta passa por uma combinação tóxica: dólar nas alturas, incerteza fiscal e choques de oferta que tiram o sono dos diretores do Banco Central. O mercado já precifica a pausa — mas o verdadeiro teste virá nos meses seguintes.
O choque pós-eleição que mudou tudo
Desde a reeleição, a percepção de risco deu um salto. O dólar fechou a sexta-feira (30) a R$ 5,447, maior alta semanal em 18 anos — nada menos que 9,18% em poucos dias. Juros futuros estressaram e o petróleo voltou a pressionar.
Para Gustavo Loyola, ex-presidente do BC e sócio da Tendências Consultoria, a autoridade monetária ficou encurralada: “É como se estivesse dando um remédio que só tivesse efeito colateral, porque o paciente está tomando outro medicamento que anula os efeitos pretendidos.”
O “outro medicamento” é a política fiscal expansionista. Sem âncora crível, cada corte de juros perde eficácia e eleva a inadimplência de famílias e empresas sem conter a inflação.
O que os grandes nomes projetam para a reunião
A divisão entre especialistas revela a complexidade do momento:
- Sérgio Werlang (FGV/ex-diretor do BC): pausa para testar se a deterioração do câmbio e das expectativas é permanente; alerta para risco de dominância fiscal se Lula 4 repetir Lula 3.
- Fernanda Guardado (BNP Paribas/ex-diretora do BC): Selic parada até março de 2025; inflação projetada para 2027 já acima de 5% (teto da meta é 4,5%).
- Alberto Ramos (Goldman Sachs): não via espaço para corte antes da eleição; agora, “não tem margem certamente para cortar”.
- Rafaela Vitória (Banco Inter): aposta em último corte de 0,25 pp com comunicação de pausa em dezembro.
Os riscos que o BC não controla — mas precisa precificar
Três frentes preocupam especialmente o comitê presidido por Gabriel Galípolo:
- Fim da escala 6×1 e reforma tributária: alíquota da CBS em 11,3% para 2027, acima do projetado.
- Nova estrutura do IPCA: pesos atualizados pelo IBGE dão mais relevância a serviços, setor onde a inflação é mais rígida.
- El Niño e combustíveis: impacto nos preços de alimentos e reajustes de petróleo subsidiado.
O horizonte relevante para a decisão de hoje é o segundo trimestre de 2028 — graças à defasagem longa da política monetária. A 13,75% ou 13,50%, a Selic segue restritiva. A dúvida é: por quanto tempo?
O que observar daqui para frente
Se o comunicado trouxer sinalização de “pausa prolongada” ou “viés de alta”, o mercado entenderá que o BC prioriza credibilidade sobre estímulo. Caso opte pelo corte residual com forward guidance de interrupção, a leitura será de transição cautelosa.
Dois gatilhos podem forçar alta de juros nos próximos trimestres: dólar sustentado acima de R$ 5,50 e expectativas de inflação 2027/2028 desancoradas acima de 5%. O próximo Boletim Focus e a definição do arcabouço fiscal do novo mandato ditarão o ritmo. Até lá, a Selic não deve cair — e pode subir.
