O presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá preencher seis das nove cadeiras da diretoria do Banco Central até o fim de 2027. Duas estão vazias desde janeiro, outras duas abrem em fevereiro de 2025 e as últimas duas em dezembro de 2027. A composição do Copom — e, por consequência, o rumo da Selic — entrará em uma zona de influência direta do Planalto como nunca antes.
O mercado financeiro já precifica o risco: a troca de nomes pode sinalizar tolerância maior com a inflação para forçar quedas mais agressivas nos juros. A dúvida não é se haverá mudança, mas qual será o perfil dos escolhidos.
O tabuleiro de 2028: maioria formada pelo governo
A partir de 2028, último ano do mandato de Gabriel Galípolo na presidência do BC, os seis indicados por Lula comporão a maioria do colegiado. Restarão apenas Galípolo, Gilneu Vivan (Regulação) e Izabela Correa (Cidadania e Supervisão de Conduta) — todos nomeados na gestão atual, com mandatos até dezembro de 2028.
Esse desenho abre um cenário inédito: o presidente do BC pode ficar isolado na condução da política monetária se os novos diretores divergirem de sua linha. O episódio de maio de 2024 ainda ecoa. Na ocasião, Galípolo e os demais indicados por Lula votaram por corte de 0,50 ponto na Selic. Perderam por 5 a 4. Desde então, todas as decisões foram unânimes.
O nome que mexeu com os preços: André Roncaglia
O rumor sobre a possível indicação do economista André Roncaglia, diretor-executivo do FMI e de perfil desenvolvimentista, provocou ajustes imediatos nos ativos locais. Roncaglia negou ter sido procurado e disse manter “colaboração proveitosa” com a Fazenda e o BC a partir de suas atribuições no Fundo. Elogiou as reformas recentes e a estabilidade conquistada.
Para um ex-dirigente da autarquia ouvido sob anonimato, a eventual chegada de Roncaglia geraria turbulência e passaria a mensagem de enfraquecimento de Galípolo. O mercado vê no nome um sinal de guinada heterodoxa — o que elevaria o prêmio de risco nas curvas de juros.
- Meta de inflação: 3% ao ano, com banda de ±1,5 p.p.
- Debate latente: flexibilização da meta ou mudança de perfil do colegiado.
- Vagas imediatas: duas diretorias vazias desde janeiro de 2024.
O que dizem os veteranos: entre o pragmatismo e o risco fiscal
Gustavo Loyola, ex-presidente do BC, alerta: se o governo não resolver o fiscal e a popularidade cair, a autoridade monetária vira “bode expiatório”. Nesse roteiro, a escolha de diretores mais maleáveis com a inflação — ou até a elevação da meta — ganha força. “Aumentar a meta é confissão de fracasso”, resume.
Já Sérgio Werlang, ex-diretor e professor da FGV, aposta na moderação. “Lula sabe que inflação alta é falta de popularidade na veia”. A expectativa é de nomes com perfil semelhante a Galípolo e Paulo Picchetti (Assuntos Internacionais): visão ampla, mas comprometidos com a meta de 3%. “Não vejo grande modificação. Manutenção do perfil médio conservador.”
Diversidade e urgência operacional
Hoje, apenas Izabela Correa ocupa cadeira na diretoria. Carolina Bohrer, chefe do departamento de Organização do Sistema Financeiro, conta com a simpatia de Galípolo para subir. A escolha será teste concreto do compromisso do governo com equidade de gênero no topo da autoridade monetária.
Caio Megale, economista-chefe da XP, cobra celeridade: “Quase um ano começa a fazer diferença no trabalho do BC. Faltar braço nas diretorias atrapalha a execução”. Rodrigo Maia, ex-presidente da Câmara e diretor do BTG, reforça: “Lula é forjado na negociação. Não acho que fará diferente”.
A vaga de Fiscalização e o fantasma do Banco Master
Em março, abre-se a diretoria de Fiscalização. A aposta do mercado é a manutenção de um servidor de carreira. Aílton de Aquino, atual ocupante, tem respaldo interno, mas carrega o desgaste do processo de liquidação do Banco Master — chegou a depor na Polícia Federal. A recondução não está descartada, mas depende do cálculo político sobre a exposição do nome.
O que observar daqui para frente
As duas primeiras indicações — para as vagas abertas em janeiro — são o termômetro imediato. Se vierem nomes com histórico de rigidez na meta, o prêmio de risco cede. Se o Planalto optar por perfis desenvolvimentistas ou alinhados a pressões por juros mais baixos a qualquer custo, a curva de juros longa reagirá antes mesmo das sabatinas no Senado. O calendário é curto: o BC opera com deficit de diretores há meses. Cada semana de atraso na nomeação é ruído extra num ano que já promete volatilidade fiscal e externa.
