A Alphabet, controladora do Google, registrou fluxo de caixa livre negativo de US$ 9,1 bilhões no terceiro trimestre, o pior resultado desde o IPO de 2004. As ações caíram mais de 8% no after-market, ameaçando apagar US$ 350 bilhões em valor de mercado. O culpado? Uma aposta sem precedentes em inteligência artificial.
O rombo no caixa que assustou Wall Street
Os investimentos de capital (Capex) saltaram para US$ 51,3 bilhões no período, ante US$ 44,9 bilhões no trimestre anterior. A diretora financeira Anat Ashkenazi sinalizou que o ano pode fechar com gastos totais de US$ 205 bilhões, exigindo desembolsos de até US$ 73 bilhões apenas nos três meses finais.
Para bancar essa expansão, a empresa quebrou um tabu histórico: anunciou a primeira emissão de ações em duas décadas, visando captar US$ 85 bilhões, além de assumir dívidas pesadas. Até então, a estratégia era recomprar papéis.
Receita e lucro ficam aquém; busca dá sinais de cansaço
O faturamento total subiu 25%, para US$ 127,6 bilhões, mas ficou ligeiramente abaixo do consenso. O lucro líquido caiu para US$ 26,2 bilhões, bem distante dos US$ 37,3 bilhões projetados. O núcleo do negócio, a publicidade em buscas, cresceu 12% (US$ 63,4 bi), porém frustrou a expectativa de US$ 64,9 bilhões.
Parte da queda no lucro líquido veio de fora da operação: a participação na SpaceX, de Elon Musk, desvalorizou 4%, gerando perda contábil de US$ 8,7 bilhões. Excluindo esse efeito, o lucro operacional avançou 30%, para US$ 40,6 bilhões, ainda assim abaixo do estimado.
O contraponto: nuvem dobra de tamanho e vira motor real
Enquanto a busca patina, o Google Cloud brilhou. A receita saltou 100% na comparação anual, atingindo US$ 30,7 bilhões. A divisão lucra com a venda de capacidade computacional para rivais — como a Anthropic — e com a adoção dos próprios modelos de IA pelos clientes corporativos.
A estratégia de “pilha completa” (chips próprios, data centers, modelos e distribuição via apps) começa a mostrar tração comercial concreta, diferentemente de apostas puramente especulativas.
- Capex Q3: US$ 51,3 bi (recorde histórico)
- Fluxo de Caixa Livre: -US$ 9,1 bi (2º negativo desde 2004)
- Projeção Capex 2024: até US$ 205 bi
- Cloud Revenue: US$ 30,7 bi (+100% a/a)
- Search Revenue: US$ 63,4 bi (+12% a/a, abaixo do consenso)
O que observar daqui para frente
O mercado agora monitora dois vetores opostos: a velocidade de monetização da IA na nuvem versus a sustentabilidade das margens de busca. Se o Cloud mantiver o ritmo triplo dígito, a queima de caixa atual será vista como investimento, não desperdício. Caso contrário, a emissão de ações diluirá acionistas sem retorno claro. O quarto trimestre, com Capex projetado acima de US$ 70 bi, será o teste de fogo definitivo para a tese de “full-stack” do Google.
