O dólar despencou para R$ 5 e a Bovespa bateu 206 mil pontos logo após o primeiro turno. A festa do mercado financeiro, porém, pode durar pouco. Joseph Stiglitz, Nobel de Economia 2001, afirma que o programa do candidato do PL levaria o PIB a encolher e ampliaria a desigualdade — exatamente o oposto do que a alta da Bolsa sugere.
Em entrevista exclusiva, o ex-economista-chefe do Banco Mundial detalha por que a combinação de austeridade com redução de impostos para os mais ricos é uma armadilha. O texto abaixo reúne os cenários que todo investidor e empresário precisa ponderar antes de apostar na euforia atual.
O que o mercado não precificou: contração imediata do PIB
Stiglitz é direto: cortar impostos e despesas ao mesmo tempo reduz a atividade econômica. Se a tesourada for ainda mais funda no lado dos gastos, o efeito contracionista se intensifica. O resultado prático é queda do PIB no curto prazo, com impacto direto na renda dos trabalhadores e no faturamento das empresas.
O candidato prometeu preservar aposentadorias. Isso empurra o ajuste todo para o Orçamento discricionário — educação, infraestrutura, ciência e programas sociais. Segundo o Nobel, esses cortes seriam “devastadores” para a classe média e para os mais pobres.
Dados do próprio governo mostram que o investimento público já ronda o menor patamar da série histórica. Aprofundar essa trajetória remove o motor que puxa a produtividade futura.
O risco de longo prazo: Brasil mais distante dos países ricos
O argumento central de Stiglitz para o horizonte de anos é simples: sem dinheiro para educação, tecnologia e logística, o país perde competitividade. A distância para as economias avançadas, em vez de diminuir, aumentaria.
- Educação: base da mão de obra qualificada que atrai investimento estrangeiro.
- Infraestrutura: reduz custo logístico e torna exportações mais competitivas.
- Pesquisa & Desenvolvimento: essencial para subir na cadeia de valor global.
Cortar esses itens hoje significa colher estagnação amanhã. O Nobel resume: “os efeitos se manifestam no futuro, por isso passam despercebidos agora”.
Por que o mercado aplaudiu se o diagnóstico é negativo?
Stiglitz atribua a euforia a uma visão “imediatista”. O mercado vê impostos menores e desregulamentação como “ambiente favorável aos negócios”. O que deixa de lado, diz ele, é que economia em recessão não é favorável a negócio nenhum.
O ex-assessor de Bill Clinton aponta ainda um descompasso: o Brasil tem superávit primário, mas déficit nominal explosivo por causa dos juros altos. Taxas reais elevadas beneficiam o rentismo, não a produção. Uma economia competitiva, argumenta, exige juros mais baixos, salários robustos e sistema financeiro que canalize recursos para investimento produtivo.
O tabuleiro geopolítico: China, EUA e a escolha perigosa
Além da política doméstica, Stiglitz traz um alerta externo. Metade das exportações brasileiras aos EUA já entrou isenta de tarifas (carne, café, suco de laranja) porque os americanos precisam desses produtos. Já a China responde por fatia maior do comércio total e interfere menos na política interna.
Para o Nobel, alinhar-se automaticamente a Washington — especialmente sob uma eventual nova gestão Trump — seria “um erro muito grave”. O Brasil teria de escolher entre o maior parceiro comercial (China) e um aliado que usa tarifas como arma política.
O que observar nos próximos meses
Três variáveis dirão se o diagnóstico do Nobel se confirma ou se o mercado acerta no otimismo:
- Detalhamento do plano fiscal: quais gastos discricionários serão cortados e em que magnitude.
- Reação do Congresso: base de apoio para aprovar reformas sem desidratar investimentos.
- Política monetária: se o Banco Central conseguirá iniciar ciclo de queda de juros sem disparar o dólar.
Enquanto essas peças não se movem, a Bolsa em 206 mil pontos reflete expectativa, não fundamento. A história ensina que ajustes baseados apenas em corte de gasto social e isenção para alta renda tendem a derrubar a arrecadação futura — e o ciclo vicioso se fecha. Acompanhe a execução orçamentária do primeiro semestre de 2025: ela será o termômetro real.
