Economia

Datafolha: Lula encurta distância para Flávio Bolsonaro e atinge melhor avaliação em 2 anos

Gráfico Datafolha mostra Lula e Flávio Bolsonaro em empate técnico nas intenções de voto para 2026
Pesquisa Datafolha de outubro revela Lula encurtando distância para Flávio Bolsonaro na corrida presidencial de 2026.

A diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro caiu para 2,3 pontos percentuais em duas semanas, enquanto a reprovação do governo atinge o menor patamar desde o início do mandato. O cenário eleitoral de 2026, porém, continua longe de definido.

A pesquisa Datafolha divulgada em 22 de outubro revela uma compressão real nas intenções de voto. Mas, para o investidor e o estrategista de negócios, o dado mais relevante não está no empate técnico: está na quebra de padrão histórico da avaliação presidencial.

O número que quebrou a estagnação

Desde setembro, a avaliação “ruim ou péssimo” do terceiro mandato travara em um platô resistente. O levantamento atual mostra o saldo negativo (diferença entre ótimo/bom e ruim/péssimo) encolhendo para apenas 3 pontos percentuais. É o melhor resultado em quase dois anos de gestão.

Para comparação, Jair Bolsonaro registrava saldo negativo de 1 ponto no mesmo ciclo da campanha de 2022. A proximidade numérica mascara, contudo, dinâmicas eleitorais opostas.

Por que a direita costuma render mais nas urnas

Analistas de risco político monitoram um viés recorrente desde 2018: eleitores de centro-direita tendem a comparecer mais às urnas do que indicam as pesquisas de véspera. Não é uma lei imutável, mas um padrão estatístico que já frustrou projeções de institutos em dois pleitos consecutivos.

Esse “voto envergonhado” ou de comparecimento diferencial transforma empates técnicos em vitórias concretas. Ignorar essa variável equivale a precificar um ativo ignorando o viés de liquidez.

A anatomia da reação petista: onde o voto migrou

O estreitamento não foi uniforme. A recuperação de Lula concentrou-se em segmentos específicos, sugerindo eficiência cirúrgica da máquina de campanha — batizada de “Exército de Lula” — nas últimas semanas. Veja os recortes onde a diferença caiu acima da margem de erro:

  • Jovens (16 a 24 anos): redução de 12,6 pontos na vantagem do adversário;
  • Nordeste: queda de 8,6 pontos na diferença;
  • Eleitores com ensino médio: compressão de 8,2 pontos;
  • Homens: aproximação de 5,8 pontos;
  • Interior do país: redução de 5 pontos;
  • Renda até 2 salários mínimos: queda de 4,2 pontos.

A mobilização digital, capitaneada pelo deputado André Janones (Rede-MG), replicou táticas de guerrilha algorítmica antes monopolizadas pelo bolsonarismo. O resultado foi a conversão de abstenção e indecisão em intenção de voto declarada.

O choque de realidade da cúpula partidária

Até o susto do primeiro turno, a direção do PT operava sob a hipótese de “barbada”: a volta de Lula seria uma procissão cívica. Subestimaram três variáveis críticas: a capilaridade do bolsonarismo como “partido de massas” digital, a inflação real sentida pelo “povo miúdo” (preços, dívida, trabalho informal) e a obsolescência da linguagem política tradicional.

O governo foi pego refém de conselheiros desconectados do centro político e do universo digital. A virada só ocorreu quando a militância de base — ignorada pela cúpula — ocupou ruas e redes por conta própria.

O que observar daqui para frente

O cenário atual desenha um segundo turno polarizado, volátil e decidido na margem. Para quem gere capital ou risco regulatório, três variáveis merecem monitoramento contínuo até 2026:

  • Trajetória da inflação de alimentos e energia: principal driver da avaliação popular nos estratos de renda baixa;
  • Evolução do endividamento das famílias: determina a sensibilidade ao discurso econômico;
  • Capacidade de manutenção da mobilização digital: se o “Exército de Lula” vira estrutura permanente ou dissolve após a eleição.

A pesquisa não crava vencedor, mas sinaliza que a vantagem estrutural da oposição deixou de ser intransponível. O prêmio de risco político do Brasil acaba de ser reprecificado.