Economia

Agro tem queda de 3% no VBP, mas soja e boi escondem o tamanho do tombo

Campos de soja e gado bovino representam agronegócio brasileiro com VBP em queda
Soja e bovinos sustentam 42% do faturamento agro enquanto VBP cai 3% em 2026

O Valor Bruto da Produção agropecuária deve fechar 2026 em R$ 1,44 trilhão, recuo de 3% frente a 2025. Sem o desempenho excepcional de apenas duas cadeias, o buraco seria bem mais fundo.

Soja e bovinos carregam nas costas 42% de todo o faturamento dentro da porteira. Entender o que move esses dois pilares é obrigatório para quem toma decisão no campo ou na bolsa.

Soja: safra recorde e preço que virou o jogo

A oleaginosa caminha para 180 milhões de toneladas colhidas. O volume sozinho já garantiria receita robusta, mas o segundo semestre trouxe um ingrediente extra: o preço reagiu.

No Paraná, a saca saiu de R$ 125 em janeiro para R$ 154 na média de setembro, segundo o Cepea. Essa combinação — mais grão e mais valor — empurrou o VBP da soja para R$ 353 bilhões, alta de 3,3%.

O que a indústria já sabe e o mercado precifica

A Abiove revisou seus números para cima. O processamento interno deve atingir 64 milhões de toneladas este ano, com potencial de 66 milhões no próximo ciclo.

As divisas de exportação são o termômetro mais claro da demanda externa:

  • 2025: US$ 53 bilhões
  • 2026 (estimado): US$ 60 bilhões
  • 2027 (projeção): US$ 69 bilhões

A escalada projetada sinaliza que o apetite global por farelo e óleo não arrefeceu. Para o investidor, isso significa fluxo de dólar previsível e margem de esmagamento pressionada positivamente.

Boi: arroba a R$ 380 e ciclo de alta sustentado

A pecuária bovina entrega R$ 253 bilhões de VBP, salto de 11%. A aritmética é simples: demanda externa aquecida + oferta restrita = preço subindo.

Em janeiro, a arroba do boi gordo media R$ 321. Nesta quarta-feira (21), fechou a R$ 380. O movimento não é pontual — reflete um ciclo de reposição de rebanho que ainda não fechou a conta.

Quem acompanha o mercado futuro na B3 já precifica manutenção dos patamares elevados até o primeiro trimestre do ano que vem.

O resto do tabuleiro: perdas que somam bilhões

Enquanto soja e boi sobem, o restante do agro sangra. Os números do Ministério da Agricultura não deixam margem para otimismo difuso:

  • Cacau: -56% no VBP
  • Laranja: -48%
  • Trigo: -28%
  • Arroz: -24%
  • Café: -10%
  • Milho (3º maior VBP): -3%, para R$ 162 bilhões
  • Cana-de-açúcar: -7%, para R$ 112 bilhões

No caso de café, laranja e cacau, a queda vem após ciclos de preços recordes que estimularam oferta e frearam a cotação. Já trigo e arroz sofrem com estoques globais confortáveis e câmbio desfavorável à exportação.

Arroz tenta virar a mesa com marketing

A Abiarroz lança no fim do mês uma campanha de uma semana para provar que o cereal “combina com tudo”. O consumo interno está estimado em 10,8 milhões de toneladas/ano pela Conab — estável, mas sem crescimento real há anos.

A estratégia mira versatilidade e preparo rápido. É tentativa de defender espaço no prato do brasileiro frente a concorrentes como massas e farinhas.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar se o VBP 2027 recupera o terreno perdido: clima na safra de soja 2026/27, ritmo das exportações de carne para a China e taxa de câmbio. O produtor que travar custos em dólar agora — insumos, arrendamento, dívida — ganha margem de manobra se o real voltar a se valorizar. O investidor deve monitorar os prêmios de exportação nos portos de Paranaguá e Santos: eles antecipam, com semanas de antecedência, qualquer mudança no apetite externo.