Cinquenta alunos do ensino fundamental de uma escola municipal em São Paulo viram seus próprios satélites cruzarem a atmosfera a bordo de um foguete Falcon 9. O lançamento ocorreu na Base de Vandenberg, na Califórnia, e marcou a primeira vez que estudantes brasileiros tão jovens alcançam o espaço com hardware próprio. O que vem depois pode mudar a forma como o país forma engenheiros.
Do laboratório escolar para a órbita baixa
Os nanosatélites EduSat-2 e EduSat-3 foram montados integralmente por estudantes de 12 a 14 anos da Escola Municipal Dr. Getúlio Vargas. Sob orientação de professores e apoio técnico de instituições parceiras, o grupo soldou placas, programou microcontroladores e testou sistemas de comunicação por radiofrequência. Cada unidade pesa menos de 1 kg e cabe na palma da mão.
O projeto nasceu em 2021 como atividade extracurricular. Em três anos, os alunos aprenderam eletrônica embarcada, telemetria e gestão de projetos — competências que costumam aparecer apenas na universidade. O custo total dos dois satélites ficou abaixo de R$ 50 mil, viabilizado por editais de ciência nas escolas e parcerias com a Agência Espacial Brasileira.
Por que o lançamento em Vandenberg muda o jogo
A SpaceX transportou os EduSats como carga compartilhada na missão Transporter-12, que colocou dezenas de pequenos satélites em órbita heliossíncrona a 525 km de altitude. O foguete decolou às 16h19 (horário de Brasília) da quinta-feira, 1.º de agosto. O primeiro sinal de telemetria foi captado pela estação de solo da escola 94 minutos depois.
O acesso a lançamentos comerciais de baixo custo foi o divisor de águas. Até 2020, colocar um CubeSat no espaço exigia contratos diretos com agências governamentais ou valores acima de US$ 100 mil. Hoje, o programa rideshare da SpaceX cobra a partir de US$ 6 mil por quilograma — o que torna viável projetos escolares com orçamento de feira de ciências.
O que os satélites vão fazer lá em cima
- EduSat-2: mede radiação cósmica e temperatura externa a cada 30 segundos
- EduSat-3: testa protocolo de internet das coisas (LoRa) para comunicação entre satélites
- Ambos transmitem dados em banda amadora, acessíveis a qualquer radioamador no mundo
- Vida útil estimada: 12 a 18 meses antes da reentrada atmosférica
Os dados coletados serão publicados em repositório aberto e usados em salas de aula de outras 200 escolas cadastradas no programa. A ideia é criar uma rede nacional de estações de solo operadas por estudantes.
Efeito cascata na formação técnica
Desde o anúncio do lançamento, a escola registrou aumento de 40% na procura pelo clube de robótica. Três ex-alunos do projeto ingressaram em engenharia aeroespacial na USP e no ITA em 2024. A Secretaria de Educação de São Paulo já estuda replicar o modelo em outras 15 unidades da rede até 2026, com previsão de investimento de R$ 2,3 milhões.
Mas o gargalo não é dinheiro. Faltam professores com formação em sistemas embarcados e radiofrequência. A universidade federal parceira oferece capacitação continuada, porém a demanda supera a oferta. “O satélite é a desculpa. O verdadeiro produto é o aluno que aprende a aprender”, resume o coordenador pedagógico do projeto.
O que observar nos próximos meses
A telemetria dos EduSats será monitorada diariamente pelos próprios alunos. Falhas de comunicação nos primeiros 30 dias são esperadas e servem como laboratório real de depuração remota. Em setembro, a equipe tentará estabelecer enlace entre os dois satélites — se funcionar, será o primeiro crosslink LoRa entre nanosatélites brasileiros em órbita.
Paralelamente, a Agência Espacial Brasileira avalia incluir cargas educacionais em seus futuros lançadores nacionais (VLM-1 e VS-50). Se a iniciativa escolar provar continuidade, o Brasil pode formar uma geração de engenheiros que já chegaram ao espaço antes de tirar a carteira de motorista.
