A Link School of Business acaba de colocar R$ 500 mil em cinco startups de inteligência artificial, tornando-se sócia com 5% de cada uma. O cheque de R$ 100 mil por empresa, porém, é apenas a ponta visível de uma estrutura que une ensino, aceleração e fundo de investimento sob o mesmo teto.
O diferencial não está no capital, mas no pacote que o acompanha: seis meses de escritório fixo, mentor de mercado escolhido pelos fundadores, suporte psicológico e portas abertas em fundos de investimento. Para Nicolas Scridelli, chefe de ventures da instituição, o aporte financeiro é o “benefício menor” da equação.
O que Google, AWS e Nvidia têm a ver com isso
Grandes players de tecnologia fecharam parcerias para turbinar as selecionadas. A escola confirma benefícios vindos de Google, AWS (Amazon Web Services), Anthropic e Nvidia, embora não detalhe os termos exatos de cada acordo. Na prática, isso significa créditos em nuvem, acesso a modelos avançados e suporte técnico de ponta para rodar modelos pesados sem queimar caixa no início.
Três apostas reveladas: saúde, educação e finanças
A faculdade mantém os nomes em sigilo, mas Scridelli descreveu o perfil de três das cinco investidas. Todas têm a IA como produto central ou como motor operacional:
- EdTech socioemocional: Monitora o estado emocional de alunos em escolas via inteligência artificial.
- Assessor financeiro via Open Banking: Usa dados bancários abertos para entregar gestão patrimonial automatizada.
- CRM e secretária médica: Automatiza o relacionamento e a agenda de consultórios e clínicas.
As outras duas seguem a mesma tese: B2B, base tecnológica proprietária e ambição global desde o dia zero.
Da sala de aula para o cap table: como funciona a seleção
Tudo começa no Startup School, programa que roda a cada semestre. A turma atual entrou com 50 grupos; a peneira caiu para 25 e, ao final, cinco recebem o investimento e apresentam para investidores no Demo Day da casa.
Scridelli acompanha os fundadores por 100 dias — dentro e fora da sala, em atividades extracurriculares e na execução do programa. Essa convivência intensa substitui a due diligence tradicional de fundos convencionais. “Não há obrigação acadêmica nos programas de ventures”, reforça ele. A Link ocupa, simultaneamente, os papéis de escola, seletora e sócia.
Engenharia pesada: parceria com ITA, Poli, Unicamp e IPT
Para garantir que a “base tecnológica” não seja apenas marketing, a Link montou um puente com o CEIA (Centro de Excelência em IA) em Goiás. O canal conecta alunos da faculdade a pesquisadores e estudantes do ITA, da Poli-USP, da Unicamp e do IPT.
O objetivo é claro: transformar problemas de negócio em tecnologia proprietária defensável, saindo do uso genérico de APIs para modelos próprios ou fine-tuning robusto.
O ecossistema por trás do cheque: três frentes, uma meta de R$ 1 bi
O braço de investimentos, batizado de Link Ventures, opera em três verticais:
- Startup School: Porta de entrada e formação.
- Link Vector: Aceleração e investimento (já passaram 16 startups; média de 5 por semestre).
- Link Capital: Fundo para estágio inicial (6 investimentos realizados).
A meta declarada para 2030 é agressiva: apoiar 500 startups, investir diretamente em 50 e atingir R$ 1 bilhão em valor de portfólio. Números que exigem escala e, principalmente, saídas (exits) relevantes nos próximos ciclos.
Por que o CEO vê o venture como “vitrine pedagógica”
Álvaro Schocair, CEO da Link, resume a estratégia: a área de investimentos existe para servir de exemplo prático ao aluno. “Quem quer buscar investidor, estruturar ideia ou validar produto precisa ver como se faz na prática, não na teoria”, diz.
Isso muda a métrica de sucesso. Não é apenas retorno financeiro (IRR), mas a capacidade de gerar case studies reais para a grade curricular e atrair talentos que querem empreender com rede de segurança técnica e capital smart money.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se o modelo se sustenta como negócio e não apenas como laboratório pedagógico:
- Taxa de follow-on: Quantas das 5 por semestre captam Série A com fundos externos em 18 meses?
- Propriedade intelectual: A parceria com ITA/Poli/IPT gerará patentes e moats tecnológicos ou ficará em PoCs acadêmicos?
- Liquidez: O caminho para o R$ 1 bi de portfólio passa por M&A ou IPOs — eventos ainda raros no early stage brasileiro.
Se a Link conseguir alinhar incentivos de escola (formar), aceleradora (crescer) e fundo (retornar), terá criado um flywheel raro no ecossistema nacional. Caso contrário, vira apenas mais um player com deal flow próprio, mas sem track record de saída. O próximo Demo Day dirá muito sobre a primeira hipótese.
