Cultura

Cine Odeon ressurge na Cinelândia: o que muda para o mercado cultural do Rio

Fachada histórica do Cine Odeon na Cinelândia, Rio de Janeiro, com letreiro luminoso aceso
Cine Odeon reabre com programação diária após seis anos, âncora da revitalização do centro do Rio.

O Cine Odeon, último cinema de rua remanescente da Cinelândia, volta a operar com programação diária a partir do dia 29 após seis anos de atividade esporádica. A reabertura integra o programa Reviver Cinema, da prefeitura do Rio, e prevê subsídio anual de R$ 1 milhão para manter a sala centenária funcionando de segunda a segunda.

O acordo entre a Rio Filme e o Kinoplex — dono do imóvel — transforma um equipamento ocioso em âncora de revitalização do centro histórico. Mas o impacto vai além da nostalgia: o modelo de gestão compartilhada entre poder público e operador privado pode ditar o futuro de outros ativos culturais da cidade.

Como funciona o modelo de subsídio

O termo de cooperação prevê aporte direto de R$ 1 milhão por ano ao Kinoplex para cobrir custos operacionais e garantir programação diversificada. Em contrapartida, a sala deve exibir mais de um filme por dia, com pelo menos uma produção nacional nos fins de semana, além de sessões gratuitas exclusivas para alunos e professores da rede municipal.

A estrutura exige ajustes pontuais no projetor e na tela, responsabilidade da exibidora. A reestreia comercial será com “As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você”, longa brasileiro com Any Gabrielly e Giulia Be baseado no livro de Fernanda de Castro Lima.

Por que a Cinelândia importa para o negócio da cultura

O bairro concentrava oito cinemas de rua em seu auge. O Odeon, inaugurado em abril de 1926, sobreviveu a todas as transformações do centro — da era dos filmes mudos ao declínio dos anos 1990. Sua reabertura não é evento isolado: faz parte do Reviver Centro, estratégia municipal de adensamento cultural e residencial na região.

  • Patrimônio imaterial: palco de estreia de clássicos como “O Exorcista” e “E.T.”, além de festivais e pré-estreias históricas
  • Capacidade instalada: sala única com infraestrutura para projeção digital e analógica
  • Localização estratégica: próximo a teatros, museus, metrô e universidades

Segundo o secretário municipal de Cultura, Lucas Padilha, a ideia é consolidar a Cinelândia como “o grande polo cultural que ela é, aproveitando sua capacidade instalada”. O anúncio ocorreu na abertura do 28º Festival do Rio, justamente no Odeon.

O que o setor privado ganha com a parceria

Para o Kinoplex, o acordo reduz risco operacional em um imóvel de manutenção cara e público flutuante. O CEO Luiz Severiano Ribeiro Neto classificou a reabertura como “mais um passo para fortalecer a cultura na nossa cidade” — linguagem corporativa que sinaliza visão de longo prazo sobre ativos de marca e responsabilidade social.

O modelo replica, em escala menor, parcerias público-privadas vistas em teatros e museus. A diferença: o cinema de rua tem custos fixos mais previsíveis e receita complementar (pipoca, publicidade, eventos corporativos) que pode tornar a operação sustentável além do subsídio.

Cenários para os próximos 12 meses

O sucesso do piloto será medido por três indicadores: ocupação média das sessões, diversidade de público (além do circuito festival) e adesão das escolas ao programa de sessões gratuitas. A prefeitura não divulgou metas numéricas, mas fontes do setor estimam que 40% de ocupação média já viabilizaria a continuidade sem aporte adicional.

Outro ponto de atenção: a programação comercial concorrerá com streaming e shoppings. A diferenciação estará na curadoria — filmes nacionais, clássicos restaurados e eventos ao vivo — que streaming não replica.

O que observar daqui para frente

O Odeon vira caso de teste para políticas de patrimônio cultural produtivo. Se o modelo funcionar, a tendência é expansão para outros imóveis ociosos do centro — o Cinema Iris, na mesma região, já está no radar do Reviver Cinema. Para investidores e gestores culturais, a lição está na estrutura do contrato: subsídio condicionado a metas de programação e acesso, não apenas manutenção predial. O próximo trimestre dirá se a sala de Oscarito e Grande Otelo vira case de gestão ou permanece símbolo de resistência sem escala.