Setenta por cento dos dispositivos de Internet das Coisas no país dependem de roaming nacional para funcionar, mas as regras atuais tornam essa conexão cara e instável. O dado, revelado em estudo da Pezco Economics para a Anatel, expõe um gargalo que vai muito além de rastreadores de frota: ameaça a viabilidade de veículos autônomos nas rodovias brasileiras.
Nenhuma operadora cobre sozinha a malha rodoviária federal. Onde uma falha, outra tem sinal — mas o celular ou o sensor do veículo não consegue “pular” de rede automaticamente.
O apagão móvel nas estradas
Segundo a TelComp, associação que reúne operadoras competitivas, as três grandes detentoras de rede não praticam roaming nacional entre si no varejo. Um carro autônomo ou um caminhão monitorado atravessa “buracos” de cobertura de sua operadora de origem e fica cego, sem alternativa técnica imediata.
A solução existe: contratos de atacado firmados por MVNOs (operadoras virtuais) que alugam capacidade de várias redes simultâneas. Na prática, porém, três barreiras comerciais travam o modelo:
- Rescisão unilateral de contratos por quem tem poder de mercado significativo, sem período de transição.
- Recusa em vender no atacado tecnologias que a mesma empresa oferece no varejo.
- Mensalidades por dispositivo que igualam ou superam o preço final cobrado do consumidor.
O peso do roaming permanente
O Plano Geral de Metas de Competição (PGMC) define roaming permanente como a permanência fora da área de origem por mais de 90 dias corridos. Para pessoas, a sanção só dispara se 5% da base estiver nessa condição. Para máquinas — sensores, medidores, câmeras —, a punição vale independentemente do volume.
Uma rescisão por esse motivo impede novo contrato regulado por um ano. Em um mercado de 58,8 milhões de acessos M2M e IoT (dados de julho de 2026), o risco de desligamento em massa é real.
Quatro players, metade do mercado
O estudo da Pezco Economics ouviu quatro prestadoras que, somadas, respondem por 5 milhões de acessos ativos. Elas estimam que 70% de suas bases dependem de roaming. A conta não fecha: sem previsibilidade contratual e com custos de atacado no nível do varejo, a expansão da IoT estanca.
Em carta à ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), a TelComp foi direta: a falta de conectividade contínua nas rodovias impede a garantia de funcionamento de veículos autônomos. Não é questão de velocidade, mas de existência de sinal.
O que observar daqui para frente
A Tomada de Subsídios nº 3/2026 da Anatel segue aberta. O desfecho definirá se o roaming permanente para M2M/IoT ganha tratamento simétrico ao de usuários pessoas — com tolerância de volume — ou se as regras atuais de rescisão automática serão mantidas.
Para quem investe em logística inteligente, cidades conectadas ou frotas autônomas, o sinal verde depende menos de tecnologia e mais de regulação. A bola está com a agência.
