Economia

R$ 10 bi e 18 protótipos: a revolução silenciosa na sua geladeira

Geladeira aberta com latas e garrafas coloridas da linha Wellness Ambev: cervejas zero álcool, sem glúten e baixa caloria
O portfólio Wellness da Ambev cresceu 60% no 2º tri de 2026, impulsionado por R$ 10 bi em inovação.

O portfólio “Wellness” da Ambev — que reúne rótulos zero álcool, sem glúten e de baixa caloria — saltou cerca de 60% em volume no segundo trimestre de 2026. O movimento não é um modismo passageiro: ele redesenha a relação do brasileiro com a cerveja e injeta nova dinâmica em um mercado bilionário.

Nos bastidores, a aposta vem sendo construída há anos. A companhia destinou mais de R$ 10 bilhões à modernização de fábricas, tecnologia e desenvolvimento de produtos no Brasil nos últimos três anos. O resultado mais visível chegou às prateleiras com a Budweiser Zero, nascida após 18 protótipos testados no Centro de Inovação Tecnológica do Rio de Janeiro.

O consumidor mudou de vez — e os números provam

A fatia das cervejas sem álcool no volume total consumido no país pulou de 2,5% em 2024 para 3,9% em 2026, segundo a Neogrid. Parece pouco, mas em escala nacional representa milhões de litros. Entre 2022 e 2024, 13 milhões de brasileiros aderiram à categoria, de acordo com a IWSR.

Dentro de casa, a curva é ainda mais íngreme. Os volumes da Ambev nesse segmento cresceram 30% em 2025, fecharam o último trimestre do ano com alta de 43% e mantiveram dois dígitos em 2026: 30% no primeiro trimestre e 30% no segundo.

Inovação que vai além do “sem álcool”

A estratégia não se resume a tirar o álcool da receita. Cada lançamento ataca uma dor ou desejo específico:

  • Skol Zero Zero: primeira cerveja nacional zero álcool e zero açúcar (lançada em 2026).
  • Spaten Pro: zero álcool com 10 gramas de proteína por unidade.
  • Michelob Ultra: menos carboidratos e calorias que a média, atrelada a esportes e patrocínios globais.

Marcas históricas também viraram a chave. Corona Cero, Budweiser Zero e Stella Artois Pure Gold (sem glúten) usam a força do nome para baixar a barreira de experimentação. A Pure Gold, inclusive, ganhou garrafa de 600 ml — formato feito para a mesa do bar, não para o consumo solitário.

O efeito Michelob e o termômetro do varejo

Michelob Ultra completou 13 trimestres consecutivos de alta e explodiu mais de 250% em volume no segundo trimestre de 2026 versus o mesmo período de 2025. No Zé Delivery, a linha Wellness já responde por cerca de 7% do volume de cervejas da plataforma; no primeiro mês da Copa do Mundo, a Ultra alcançou mais de 250 mil consumidores pelo app.

No varejo físico, a cesta média engordou: o brasileiro levava 4,6 unidades de zero álcool por compra em 2024; em 2026, subiu para 5,5 unidades, conforme Neogrid. A recorrência está aumentando, não apenas a curiosidade inicial.

Negócio saudável, balanço robusto

A diversificação não canibalizou o core. No segundo trimestre de 2026, a receita líquida consolidada subiu 6% na comparação anual. O EBITDA ajustado bateu R$ 8,46 bilhões (+9%) e o lucro líquido disparou 25%, para R$ 3,5 bilhões. A inovação de portfólio está, de fato, pagando as contas.

O que observar daqui para frente

O próximo gatilho será a capacidade da indústria de manter o ritmo de inovação sem diluir margens — custos de P&D e marketing para educar o consumidor seguem altos. Acompanhe a evolução da participação de volume (hoje em 3,9%) e a penetração nos canais de conveniência. Se a cesta média no varejo ultrapassar 6 unidades por viagem consistentemente, a categoria deixa de ser “nichos” e vira pilar de receita. Para investidores e gestores, o sinal está dado: a cerveja deixou de ser commodity única para virar plataforma de ocasiões.