Justiça

Você não vai acreditar como a OSX escapou da falência

Logotipo da OSX sobre fundo do Porto do Açu com martelo judicial simbolizando recuperação aprovada
Justiça homologa recuperação da OSX via cram down, viabilizando venda de ativos no Porto do Açu.

A Justiça do Rio homologou o plano de recuperação judicial da OSX, empresa do grupo de Eike Batista, usando o mecanismo de cram down para superar a oposição de um único credor trabalhista. A decisão, comunicada à CVM na quinta-feira (1º), afasta o risco imediato de falência e abre caminho para a venda da principal joia do grupo: a área no Porto do Açu.

Mas o que parecia um fim melancólico virou um tabuleiro complexo de opções para bancos, fornecedores e pequenos credores. Entenda como a divisão da dívida vai ditar os próximos passos.

O golpe do cram down: como a Justiça ignorou a oposição

O juiz Leonardo de Castro Gomes aplicou o cram down — aprovação forçada do plano mesmo sem consenso unânime. A divergência partia da classe trabalhista, que detinha apenas 0,26% do passivo total (R$ 16,5 milhões).

As outras duas classes de credores já haviam dado o aval na assembleia de 24 de agosto. Para o magistrado, rejeitar o plano e decretar a falência causaria “destruição de valor”, já que a venda forçada de ativos em cenário falimentar geraria preços vilões.

A ponte para o próximo capítulo: Com a homologação, a OSX inicia agora a execução prática do pagamento. O foco total se volta para a alienação dos ativos.

A joia da coroa: Porto do Açu e a UPI de R$ 1,2 bilhão

A estratégia central gira em torno da criação da NewCo, uma Unidade Produtiva Isolada (UPI). Ela concentra os ativos valiosos: o direito de uso da área no Porto do Açu (RJ), equipamentos e contratos de locação.

Não por acaso, o próprio juiz já havia classificado o Porto do Açu como a única fonte de receita da OSX e “essencial para o fluxo de caixa” em 2024. O lance mínimo para arrematar essa UPI foi fixado em R$ 1,2 bilhão.

O vencedor do leilão ainda assume um compromisso extra: conceder um empréstimo de R$ 76 milhões ao Grupo OSX. Esse caixa servirá, prioritariamente, para quitar os créditos trabalhistas e as demais classes.

Como fica o bolso de cada credor? As opções na prática

O plano desenha cenários distintos conforme a classe. Veja o resumo prático para quem tem dinheiro a receber:

  • Classe Trabalhista (Prioridade): Recebe até o teto de 150 salários-mínimos (~R$ 198 mil). O que exceder cai para a classe dos quirografários.
  • Classe 3 — Quirografários (Bancos sem garantia e grandes fornecedores): Maior fatia da dívida. Devem escolher uma das alternativas:
    • R$ 123 mil à vista e quitação total do restante;
    • 40% do valor corrigido, pago em 30 anos;
    • 1% do crédito à vista;
    • Usar o crédito como “moeda” para comprar a UPI NewCo no leilão.
  • Classe 4 — Micro e Pequenas Empresas: Três caminhos possíveis:
    • Receber até R$ 54 mil à vista, sem deságio;
    • Aceitar desconto de 99% sobre o valor devido;
    • Receber 50% do crédito em 30 anos.

O que observar daqui para frente

A homologação foi o passo burocrático decisivo, mas o desfecho financeiro depende da adesão dos credores às opções acima e, principalmente, do sucesso do leilão da NewCo. Se não houver comprador pelo piso de R$ 1,2 bilhão, a engenharia financeira toda pode precisar de revisão.

Para investidores e parceiros comerciais, o sinal de alerta está no prazo alongado (30 anos) oferecido às classes maiores — sinal de que a recuperação real de valor ainda é incerta. Acompanhe os fatos relevantes da CVM: a definição dos credores quietos sobre qual opção escolherão será o termômetro real da viabilidade da OSX pós-Eike.