Justiça

Juiz inclui prompt para IA em sentença e expõe bastidores do Judiciário digital

Juiz com robô de IA redigindo sentença judicial em tela de computador
Magistrado catarinense expõe prompt usado no Copilot para redigir voto judicial.

Um magistrado de Santa Catarina assinou uma decisão judicial que trazia, no próprio corpo do texto, as instruções dadas a uma inteligência artificial para redigir o voto. O episódio levanta dúvidas imediatas sobre os limites da automação em decisões que afetam patrimônio e liberdade.

O documento, assinado em 26 de setembro, continha o comando completo enviado ao Copilot — incluindo pedido para imitar o estilo do próprio juiz — seguido da marca “Copilot said:”. Três dias depois, uma nova decisão idêntica no mérito apareceu sem rastros da ferramenta.

O que o despacho revela sobre a rotina dos gabinetes

O juiz Clayton Cesar Wandscheer, da 2ª Vara Cível de Blumenau, assinou o Evento 109 às 19h47 de uma quinta-feira. Antes da fundamentação jurídica, o arquivo exibia um prompt detalhado: linguagem técnica, parágrafos concisos, silogismo jurídico, jurisprudência pertinente e argumentação “persuasiva, lógica e sequencial”.

Em seguida, surgia a resposta da IA sobre um bloqueio de R$ 693,03 em execução por dívida condominial. A decisão determinava a devolução do valor à executada, reconhecendo que R$ 200 provinham de faxina esporádica e R$ 400 eram empréstimo da filha — quantias consideradas impenhoráveis.

Versão sem IA surge 72 horas depois

No dia 29, às 14h46, o Evento 118 foi assinado. Mesma causa, mesmo valor, mesma fundamentação sobre faxina e empréstimo da filha. Mesma ordem de levantamento do bloqueio e intimação do credor para atualizar a dívida. A diferença: sumiram o prompt, a marca “Copilot said:” e qualquer menção à ferramenta.

O Tribunal de Justiça de Santa Catarina foi questionado sobre o uso do Copilot, se as instruções foram incluídas por engano e qual a relação entre os dois eventos. Até o momento, não houve resposta oficial.

O que as regras do CNJ permitem — e o que proíbem

A Resolução 615/2025 do Conselho Nacional de Justiça, alterada pela Resolução 674/2026, autoriza magistrados e servidores a utilizarem IA generativa como ferramenta de auxílio à gestão ou apoio à decisão. A norma é taxativa:

  • Caráter estritamente auxiliar e complementar
  • Vedado uso autônomo para decidir sem orientação, interpretação, verificação e revisão do magistrado
  • Responsabilidade integral da decisão e de seu conteúdo permanece com o julgador

O episódio de Blumenau coloca em evidência a linha tênue entre “apoio” e “terceirização cognitiva”. O prompt pedia à IA que estruturasse o raciocínio — identificasse argumentos, aplicasse silogismo e concluísse. Em tese, o juiz revisou. Na prática, o texto final espelha a resposta da máquina.

Riscos que vão além do caso concreto

Especialistas em direito processual e ética judicial apontam três zonas de tensão:

  • Transparência: partes e advogados não sabem quando uma decisão teve coautoria algorítmica
  • Vieses ocultos: modelos de linguagem reproduzem padrões de treinamento que podem enviesar a fundamentação
  • Responsabilidade difusa: se houver erro jurídico na resposta da IA, quem responde — o magistrado que assinou ou o desenvolvedor do modelo?

O fato de a segunda decisão replicar o conteúdo sem o rastro da IA sugere que o magistrado validou o texto. Mas a ausência de registro oficial sobre o uso da ferramenta impede controle social e auditoria posterior.

O que observar daqui para frente

O CNJ deve publicar, nos próximos meses, diretrizes mais granulares sobre rastreabilidade de decisões assistidas por IA — incluindo logs de prompts, versões intermediárias e declaração expressa de uso. Enquanto isso, advogados podem requerer, em casos suspeitos, a exibição do histórico de elaboração do julgado. Tribunais estaduais também começam a exigir certificação de que o magistrado leu, compreendeu e assumiu inteiramente a fundamentação. Para quem atua no contencioso, a lição prática é clara: decisões idênticas em curto intervalo, com e sem rastros de IA, podem virar matéria de arguição de nulidade ou pedido de esclarecimento em grau de recurso.