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O fim do dinheiro? Tecban aposta em agências multimarcas e dados para sobreviver à era Pix

Caixa eletrônico Banco24Horas moderno em agência multimarcas da Tecban
Tecban transforma caixas eletrônicos em hubs de serviços financeiros multimarcas

A Tecban, dona da rede Banco24Horas, está reinventando seu modelo de negócio antes que o caixa eletrônico vire peça de museu. O caixa continua relevante — 30 milhões de brasileiros ainda sacam todo mês —, mas a trajetória é clara: o número de terminais no país caiu de 120 mil para 100 mil em três anos e deve encolher para 70 mil até 2029.

O CEO Patricio Santelices admite: a receita exclusiva da rede Banco24Horas, que era 95% do faturamento há dois anos, hoje responde por 80%. A meta é cortar essa dependência para 60% em quatro anos. Até dezembro, os novos negócios já devem representar 20% da receita.

Agências multimarcas: o contra-ataque presencial

Em setembro, a empresa iniciou o piloto do “Espaço Banco24Horas” — agências multimarcas onde vários bancos compartilham a mesma estrutura física. A ideia é simples: em vez de cada instituição manter sua própria agência, uma única equipe atende clientes de qualquer um dos 150 bancos e instituições de pagamento conectados à rede.

O Banrisul foi o primeiro a terceirizar 100% dos caixas do interior. Outros cinco bancos seguiram o mesmo caminho e descobrem que 25% a 30% das transações dentro de suas agências vêm de clientes de concorrentes. A interoperabilidade virou vantagem competitiva.

  • Economia projetada para o sistema: quase R$ 1 bilhão
  • Presença física: mais de 2.000 municípios
  • Horário: funcionamento o dia todo, com atendente no local

Parece contraintuitivo abrir pontos físicos enquanto o digital avança. Mas Santelices argumenta que o atendimento presencial não vai desaparecer — vai se concentrar. E quem tem capilaridade nacional sai na frente.

O ativo invisível: dados de 30 milhões de pessoas

Além da infraestrutura, a Tecban guarda um tesouro: o comportamento financeiro de quem ainda usa dinheiro vivo. Com modelos de inteligência artificial, a empresa mapeia como essa população — boa parte ganhando até dois salários mínimos — distribui saques ao longo do mês, consome e se desloca.

Esses dados interessam ao varejo, a governos e aos próprios bancos. A empresa já oferece gestão de pontos de venda com biometria e ofertas personalizadas para varejistas. É a transformação de uma empresa de “caixas” em uma empresa de informação.

Segurança e o fim dos ataques com explosivos

Fraudes em caixas eletrônicos não chegam a 1% das transações. A violência física — explosões com dinamite — caiu drasticamente. “Hoje é muito menos interessante colocar bomba num caixa”, diz Santelices. “O criminoso prefere ligar e usar engenharia social.” O risco migrou do físico para o digital.

Por que o dinheiro não vai acabar (nem em 2030)

Cerca de 6% das transações no Brasil ainda são em dinheiro. A projeção é estabilizar em torno de 2% daqui a cinco anos — o mesmo patamar de Noruega, Finlândia, Suécia e Holanda. Não é zero. E géopolitica explica por quê: bancos centrais europeus estão revendo a digitalização total após crises de infraestrutura deixarem populações desabastecidas.

O Rio Grande do Sul provou o ponto em 2024: sem eletricidade, não há Pix. O dinheiro físico funciona off-line. “Tem um equilíbrio e nunca é zero”, resume o executivo.

O que observar daqui para frente

A Tecban fatura R$ 2,91 bilhões e lucrou R$ 38,2 milhões em 2025, com mais de 6 mil funcionários. Os sócios seguem sendo os cinco maiores bancos do país. Os próximos passos definem se a empresa vira caso de reinvenção bem-sucedida ou apenas administra o declínio de um ativo legado.

Três sinais para monitorar: a velocidade de adoção das agências multimarcas pelos bancos médios, a receita real gerada pela venda de insights de dados (não apenas pilotos) e se a estabilização do uso de caixa em 2% se confirma — ou se o piso é mais alto no Brasil, onde a bancarização plena ainda não chegou ao interior profundo.