O controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, acumulou 21 horas e 45 minutos em dependências do Banco Central durante a gestão de Roberto Campos Neto. Registros oficiais obtidos via Lei de Acesso à Informação revelam 24 entradas entre 2019 e 2024, incluindo três encontros concentrados em meses sensíveis para a supervisão da instituição.
O episódio mais emblemático ocorreu em 22 de dezembro de 2023. Vorcaro entrou no prédio do BC em São Paulo às 16h58 e saiu às 18h01, permanecendo 1h03min com o então presidente da autarquia. O detalhe decisivo: a reunião ocorreria na residência oficial de Campos Neto, transferida às pressas para a sede da autoridade monetária devido a uma dedetização no imóvel.
Alertas da CVM já estavam na mesa
Quando o encontro aconteceu, o Banco Central já detinha, há mais de um ano, quatro comunicações formais da CVM sobre suspeitas envolvendo o Master, o antigo Banco Máxima e empresas ligadas ao grupo. Os avisos partiram das superintendências de Relações com o Mercado (SMI) e de Registro de Valores Mobiliários (SRE) entre 2020 e 2022.
Ou seja: o presidente da autoridade responsável por fiscalizar o sistema financeiro recebeu, em caráter privado, o controlador de uma instituição já sob radar do órgão regulador do mercado de capitais. A proximidade direta entre fiscal e fiscalizado salta aos olhos nos registros de acesso e nas trocas de mensagens reveladas pela imprensa.
Visitas no “apagão” das conversas
Após o encontro de dezembro, o histórico de mensagens entre ambos fica em silêncio até 12 de março de 2024. Nesse intervalo, no entanto, Vorcaro voltou ao BC.
- 7 de fevereiro de 2024: entrada às 11h27, saída às 12h49 (1h21min de permanência).
- 19 de março de 2024: entrada às 10h46, saída às 12h06 (1h20min de permanência).
Em nenhuma das duas ocasiões a planilha oficial identifica quem recebeu o banqueiro ou qual a pauta discutida. A segunda visita ocorreu apenas seis dias depois de uma troca de mensagens curiosa.
“Merecido! Parabéns!” e a coincidência do prêmio
Em 12 de março, Campos Neto enviou uma imagem a Vorcaro. A resposta foi imediata: emojis de palmas e a frase “Merecido! Parabéns!”. No dia seguinte, o então presidente do BC agradeceu: “Muito obrigado Daniel. Um grande abraço e sucesso”.
A data não é aleatória. Em 12 de março de 2024, o Banco Central anunciou a conquista do título “Central Bank of the Year 2024”, principal categoria do Central Banking Awards. A celebração privada do controlador do Master pelo reconhecimento internacional da autoridade que o supervisionava reforça o grau de intimidade institucional.
O padrão histórico de acesso
As três passagens do início de 2024 fazem parte de uma rotina consolidada. O levantamento completo do período 2019-2024 mostra uma frequência variável, mas persistente:
- 2019: 11 visitas
- 2020: 2 visitas
- 2021: 0 visitas
- 2022: 2 visitas
- 2023: 4 visitas
- 2024: 5 visitas (até outubro)
A permanência mais longa registrada aconteceu em 30 de outubro de 2024: 2 horas e 44 minutos. Na ocasião, Vorcaro estava acompanhado de Augusto Lima e foi recebido pelo diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino.
O elo com a Diretoria de Fiscalização
Ailton de Aquino é peça central nas apurações atuais. Em depoimento à Polícia Federal em maio e agosto de 2026, como testemunha, o diretor relatou “vazamentos sistemáticos” de informações sensíveis sobre o Master dentro do BC e confirmou saber que Vorcaro mantinha contato direto com servidores da área de supervisão.
A PF investiga suspeita de favorecimento ao banco por funcionários dessa estrutura. Aquino não é investigado. O BC contesta interpretações de que o diretor teria atuado para ajudar o Master em problemas de liquidez — citando mensagens com o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa — e afirma que foi a área chefiada por Aquino que identificou inconsistências, comunicou o MPF e propôs a liquidação do conglomerado.
O que observar daqui para frente
O inquérito policial segue aberto para apurar se a proximidade entre o controlador do Master e a alta cúpula do Banco Central — incluindo o gabinete da presidência e a diretoria de fiscalização — resultou em tratamento diferenciado ou omissão supervisória. A proposta de liquidação do grupo, formulada pela própria área técnica do BC, coloca em xeque a eficácia dos controles internos durante os anos em que Vorcaro teve acesso livre e frequente às instalações da autoridade monetária. O desfecho dessa apuração deve ditar os próximos passos da regulação bancária no país.
