Roger Lynch anunciou nesta quarta-feira (30) sua saída do comando da Condé Nast após mais de sete anos para assumir a presidência do conselho e a CEO da Mattel. A mudança pegou o mercado de surpresa e coloca o executivo no centro da estratégia de transformar a fabricante de brinquedos em um império de entretenimento.
O anúncio interno foi feito via memorando, mas o controlador Advance Publications soube da decisão apenas dois dias antes. Mike Perlis, ex-CEO da Forbes Media, assume interinamente enquanto o conselho inicia a busca pelo sucessor definitivo.
O legado de números e cortes na Condé Nast
Lynch herdou uma operação com prejuízos anuais superiores a US$ 100 milhões em 2019. Sua gestão focou em reduzir a dependência do impresso e escalar receitas de eventos e vídeo — uma transição marcada por sucessivas rodadas de demissões e reestruturações profundas.
Os resultados financeiros, no entanto, mostram recuperação. No memorando de despedida, Lynch destacou marcos que devem pesar na avaliação do próximo líder:
- Receita de eventos: crescimento de 9x desde 2020;
- Assinaturas digitais: alta de 155% no mesmo período;
- Lucratividade: quatro anos consecutivos de lucro desde 2020, com projeção de novo crescimento em 2024.
Paralelamente, a empresa fechou revistas como Self e edições internacionais da Glamour, fundiu a Teen Vogue à Vogue e pagou mais de US$ 400 mil a três jornalistas demitidos após questionarem a diretoria de RH.
O vácuo de poder e a sombra da inteligência artificial
O próximo CEO herdará dois desafios estruturais. O primeiro é a sucessão de Anna Wintour, diretora global de conteúdo aos 76 anos, cuja influência no mercado de moda permanece inigualável. O segundo, mais urgente, é a erosão do tráfego orgânico causada pela inteligência artificial nos mecanismos de busca.
Steven Newhouse, copresidente da Advance, minimizou a turbulência: afirmou que a empresa está “em ótima situação” e que este seria o momento ideal para a transição. A busca por um substituto ocorre enquanto a Condé expande operações no Oriente Médio — com escritório em Dubai — e testa a Vette, marketplace voltado a criadores de conteúdo.
Por que a Mattel escolheu um executivo de mídia
A fabricante de Hot Wheels e Barbie não quer apenas vender brinquedos. O sucesso global do filme Barbie provou que o IP (propriedade intelectual) da empresa sustenta franquias bilionárias, apesar do fracasso de bilheteria de Mestres do Universo — que depois encontrou público no streaming.
Com mais de uma dezena de projetos em desenvolvimento, incluindo um filme de Matchbox direto para streaming, a Mattel precisa de quem entenda licenciamento, distribuição de conteúdo e monetização de audiências. Lynch assume oficialmente em 2 de novembro, sucedendo Ynon Kreiz, que foi nomeado co-CEO da futura fusão entre Warner Bros. Discovery e Paramount.
O que observar daqui para frente
A transição na Condé Nast será o termômetro para saber se a indústria de revistas de luxo consegue sobreviver à era da busca generativa sem sua principal arquiteta comercial. Do lado da Mattel, a prova de fogo será transformar o catálogo de brinquedos em uma slate de entretenimento consistente, além do fenômeno pontual da boneca mais famosa do mundo. Para investidores e executivos, a movimentação sinaliza que as fronteiras entre mídia, varejo e propriedade intelectual deixaram de existir.
