Justiça

Só 3 de 10 presidenciáveis assinam carta contra trabalho escravo; veja quem ficou de fora

Três candidatos à presidência assinam documento da Conatrae contra trabalho escravo, sete cadeiras vazias ao fundo
Apenas 3 de 10 presidenciáveis assinaram a carta-compromisso pela erradicação do trabalho análogo à escravidão.

Dos dez candidatos à Presidência convidados a firmar o compromisso público de erradicação do trabalho análogo à escravidão, apenas três assinaram o documento até o prazo final desta segunda-feira (28). A adesão revela um racha silencioso entre as campanhas sobre um tema que, em tese, deveria ser consenso.

A Carta-Compromisso, organizada pela Conatrae (Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo), vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos, circula a cada eleição desde 2006. O que mudou agora foi a baixa adesão no topo da chapa federal.

Quem assinou — e o que o documento exige na prática

Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) são os únicos signatários entre os presidenciáveis. Ao rubricar a carta, eles se comprometem com 14 diretrizes operacionais, entre elas:

  • Vedar contratos públicos com empresas flagradas na “lista suja” do trabalho escravo;
  • Garantir orçamento e autonomia para a fiscalização trabalhista;
  • Implementar o Fluxo Nacional de Atendimento às Vítimas, com assistência psicossocial, educação e reintegração econômica;
  • Proteger defensores de direitos humanos que atuam no resgate de trabalhadores.

O descumprimento de qualquer cláusula não prevê sanção automática, mas cria um parâmetro público de cobrança para o eventual mandato.

Os ausentes: Bolsonaro, Zema e outros silenciaram

Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) receberam o convite, mas não devolveram a assinatura nem justificaram a recusa até o fechamento do prazo. Procurados, seus assessores não responderam.

O silêncio chama atenção porque a carta não traz inovações legislativas — apenas reforça obrigações já previstas no Art. 149 do Código Penal e no 3º Plano Nacional de Erradicação, vigente desde 2020. Recusar-se a assinar, portanto, é um sinal político, não jurídico.

O que os números mostram sobre o tamanho do problema

Desde 1995, mais de 70 mil trabalhadores foram resgatados em condições análogas à escravidão no Brasil. Os setores campeões de ocorrência:

  • Pecuária e agricultura (soja, café, algodão, cana);
  • Construção civil e carvoaria;
  • Oficinas de costura e trabalho doméstico.

O caso mais recente que ganhou repercussão nacional ocorreu em agosto, em Belo Horizonte: duas idosas, de 90 e 65 anos, resgatadas após décadas de trabalho doméstico sem registro, salário ou férias. A mais velha estava na mesma casa há 75 anos.

Por que isso afeta quem gere negócios e investe

O compromisso de “não promover empreendimentos que utilizem mão de obra escrava” atinge diretamente cadeias de fornecimento. Empresas que dependem de commodities agrícolas, confecção ou construção civil passam a ter um parâmetro adicional de due diligence: a adesão do futuro governo à fiscalização ativa e à manutenção da “lista suja” — cuja constitucionalidade foi confirmada pelo STF em 2020.

Se o eleito for um dos signatários, a tendência é de maior pressão por rastreabilidade e compliance nas cadeias. Se for um dos não signatários, o sinal é de menor prioridade política para o tema — o que pode reduzir o risco regulatório imediato, mas aumenta o risco reputacional para marcas expostas a auditorias internacionais.

O que observar nos próximos meses

A Conatrae divulga as assinaturas em tempo real no seu perfil oficial no Instagram. Candidatos a governos estaduais também aderiram — o que pode criar um mosaico de fiscalização desigual entre unidades da Federação.

Para empresários e investidores, três variáveis merecem monitoramento contínuo: (1) a composição do próximo Ministério do Trabalho e Emprego; (2) o orçamento destinado à Auditoria-Fiscal do Trabalho no PLOA 2025; (3) eventuais projetos de lei que condicionem contratos públicos à declaração de inexistência de trabalho análogo ao de escravo na cadeia — proposta já prevista na carta e que pode avançar no Congresso.

A assinatura é simbólica, mas a implementação é orçamentária. O resto é consequência.