Economia

Crédito imobiliário: alta de 37,5% esconde virada que poucos percebem

Gráfico de barras mostra alta de 37,5% no crédito imobiliário SBPE, atingindo R$ 132,5 bi em 2025
Crédito imobiliário com recursos da poupança bate recorde histórico nos primeiros oito meses do ano

O crédito imobiliário financiado com recursos da poupança (SBPE) atingiu R$ 132,5 bilhões entre janeiro e agosto, um salto de 37,5% frente ao mesmo período de 2025. Mas o volume recorde esconde uma mudança estrutural que separa ganhadores e perdedores no setor.

Em agosto alone, foram liberados R$ 16,97 bilhões — alta de 46,6% na comparação anual. A média mensal de R$ 16,6 bilhões confirma um novo patamar, mas a explicação não está apenas na Selic.

Por que o dinheiro da poupança voltou a fluir

A Abecip revisou a projeção de crescimento para 2026: de 15% para 18%, mirando R$ 185 bilhões no ano. Três fatores explicam a aceleração, segundo o diretor Filipe Pontual:

  • Liberação do compulsório: R$ 38 bilhões já saíram do depósito obrigatório no Banco Central, injetando liquidez imediata.
  • Mercado secundário ativo: 70% dos financiamentos vão para imóveis usados, sinalizando rotação de estoque.
  • Novo modelo habitacional: teto de juros em 12% ao ano + TR no SFH e limite do imóvel subiu para R$ 2,25 milhões.

Essas medidas entraram em vigor em 2025 com liberação inicial de 5% do compulsório; a expansão gradual segue até 2035.

O tombo do crédito livre e o que isso significa para você

Enquanto o SBPE dispara, o financiamento com recursos livres desabou 63,3% em agosto (R$ 1,31 bilhão) e acumula queda de 33,9% no ano (R$ 11,5 bilhões). A razão é simples: ficou caro demais.

Com a Selic a 13,75% ao ano, o custo de captação para bancos no mercado livre supera o teto regulado do SBPE. Resultado: instituições redirecionam funding para a poupança, onde a margem é garantida pela regra.

Para o empreendedor, isso significa janela estreita: quem precisa de valores acima de R$ 2,25 milhões ou fora do SFH encontra crédito escasso e caro.

O que observar até o fim do ano

A manutenção desse ritmo em 2027 depende de duas variáveis que ainda não estão dadas. A primeira é a política fiscal do próximo governo — qualquer sinal de descontrole eleva o prêmio de risco e pressiona juros longos. A segunda é o comportamento do compulsório: a liberação programada continua, mas o Banco Central pode ajustar a velocidade se a inflação reagir.

Enquanto isso, a média mensal de R$ 16,6 bilhões deve se sustentar nos próximos meses, impulsionada pela sazonalidade de fim de ano e pela fila de empreendimentos já aprovados. Quem atua na ponta — construtoras, corretores, investidores em fundos imobiliários — ganha previsibilidade de curto prazo, mas deve monitorar o discurso fiscal pós-eleição para calibrar estoque e alavancagem.

O cenário externo (petróleo, commodities) adiciona ruído, mas o vetor doméstico — regra do jogo clara e funding barato — segue ditando o ritmo.