A plataforma TemMeuVoto, apresentada como uma revolução no voto consciente, tirou o site do ar nesta quarta-feira (30) — apenas três dias após ganhar vitrine nacional no Domingão com Huck. A Coalizão pelo Voto Consciente, responsável pela ferramenta, admitiu que a baixa adesão de candidatos comprometeu a promessa de diversidade.
O anúncio pegou de surpresa quem testou o “match” eleitoral no fim de semana. Mas a velocidade do colapso esconde uma sucessão de ruídos técnicos, acusações de viés ideológico e uma investigação aberta no Ministério Público Federal.
O argumento oficial: diversidade insuficiente
Em nota, a coalizão afirmou ter convidado legendas de todos os matizes, porém a participação ficou “abaixo do necessário”. Sem uma base ampla de candidaturas, a comparação perdia o sentido. O texto reconhece que não houve tempo hábil para reverter o cenário antes do pleito.
São 14 entidades por trás do projeto, incluindo Livres, RenovaBR, Instituto Ethos e Transparência Internacional. A estrutura parecia robusta, mas a capilaridade nas bases partidárias falhou.
O algoritmo que “chutava” para a direita
O estopim da crise não foi a quantidade, mas a qualidade da entrega. Usuários relataram: ao marcar respostas alinhadas à esquerda, o sistema priorizava nomes do PL e do Novo no topo da lista.
Antes da suspensão, a ordenação dos resultados mudou. O rodapé que antes citava um “sorteio” passou a exibir “maiores índices de afinidade primeiro”. A alteração silenciosa ocorreu sob fogo cruzado nas redes e questionamentos formais.
Do entretenimento à investigação criminal
A repercussão saiu do Twitter para o gabinete da deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS). Ela protocolou representação no MPF do Rio Grande do Sul alegando irregularidades na divulgação feita por Huck e pela Globo. O vereador Nabil Bonduki (PT-SP) também pediu a queda da plataforma.
Até o momento, a emissora informa não ter sido notificada oficialmente.
Conexões que explicam o ruído
Olhar para os bastidores ajuda a entender a desconfiança. Fábio Silva, fundador do Transforma Brasil e peça-chave na criação do TemMeuVoto, participou em setembro de encontro de lideranças com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP).
A coalizão nega favorecimento e garante critérios iguais a todos. Porém, não respondeu diretamente sobre a mudança no critério de ordenação dos resultados.
O que observar daqui para frente
O episódio expõe a fragilidade de iniciativas civis que dependem de adesão partidária voluntária em curto prazo. Para o eleitor, fica o alerta: ferramentas de “match” político exigem transparência no código e auditoria independente — não apenas boa vontade.
Se a coalizão tentar relançar em 2026, precisará resolver a equação que derrubou o piloto: como garantir pluralidade real quando os próprios candidatos decidem não jogar.
