O Programa FAPESP de Mudanças Climáticas (PFPMCG) acaba de abandonar a estrutura por disciplinas para atacar problemas reais, integrando saúde pública e políticas públicas no centro da ciência. A decisão responde a um alerta brutal: o limite de 1,5 °C de aquecimento pode ser rompido já em 2029. A grande incógnita agora é se a ciência conseguirá ditar o ritmo das decisões antes que o custo da inação exploda no bolso do setor produtivo.
Criado em 2008 com foco na física da atmosfera, o programa acumulou vitórias técnicas, como o mapeamento dos “rios voadores” da Amazônia e projeções de elevação do nível do mar no litoral paulista. Mas a gestão atual admite um descompasso perigoso: enquanto a emergência climática virou sanitária e humanitária, a maior parte do financiamento ainda flui para ciências exatas.
O desequilíbrio numérico que travava soluções
Dados internos do comitê gestor expõem a falha estrutural. Entre 2020 e 2025, 45% das propostas aprovadas vieram de exatas. Saúde respondeu por míseros 4%. Ciências humanas e sociais, essenciais para entender vulnerabilidade e comportamento, ficaram com cerca de 10%.
“Vamos praticar a ‘indisciplinaridade'”, resume David Lapola, coordenador do programa e pesquisador do Cepagri/Unicamp. A expressão, cunhada pelo ecólogo Thomas Lewinsohn, sinaliza o fim das chamadas temáticas isoladas. O novo modelo prioriza editais baseados em problemas transversais — do estresse hídrico à justiça climática — forçando equipes mistas desde a concepção do projeto.
Saúde deixa de ser apêndice e vira eixo central
A incorporação da abordagem “Saúde Única” (One Health) marca a virada mais concreta. A nomeação da professora Simone Miraglia (Unifesp), especialista em poluição atmosférica e saúde pública, para a coordenação não é simbólica. Ela representa a exigência de acoplar modelos climáticos a dados epidemiológicos do SUS.
- Ondas de calor: impacto direto na mortalidade idosa e custos hospitalares.
- Qualidade do ar: ligação entre queimadas, doenças respiratórias e produtividade laboral.
- Vetores: expansão geográfica de dengue e malária com a mudança de padrões de chuva e temperatura.
Para Maria de Fátima Andrade (IAG-USP), a modelagem puramente física já não basta. “Precisamos de uma base que integre processos físicos e biológicos”, afirma. A implicação prática é clara: planejamento urbano, seguros e agronegócio passam a exigir cenários que contabilizem vidas e internações, não apenas milímetros de chuva ou graus Celsius.
Humanas na largada, não no pódio
Um dos pontos mais duros do workshop realizado na Unicamp em setembro foi a crítica à participação tardia de sociólogos, economistas e cientistas políticos. Frequentemente chamados apenas para “divulgar” resultados, esses pesquisadores agora devem estar na formulação das perguntas.
A lógica é pragmática: sem entender dinâmicas de poder, desigualdade e tomada de decisão, o melhor modelo climático do mundo vira artigo de jornal, não política pública. A ponte entre conhecimento e ação — o “último quilômetro” da ciência — exige expertise em governança e comportamento humano desde o dia zero do projeto.
O novo inimigo: não é negação, é atraso
Lapola alerta para a migração do negacionismo clássico para o “obstrucionismo”. A tática admite o problema, mas bloqueia soluções apostando em uma salvação tecnológica futura — captura de carbono, geoengenharia, fusão nuclear — para justificar a manutenção do status quo hoje.
O argumento foi exposto nas negociações recentes do IPCC, onde nações como Arábia Saudita, Índia e Rússia, além de movimentos nos EUA, usam a promessa tecnológica para adiar metas de mitigação e justiça climática. “Não existe tecnologia única e em escala suficiente para barrar as emissões”, sentencia Lapola. A esperança mal colocada vira arma de procrastinação.
Parcerias estratégicas e o relógio da COP-30
A nova fase prevê chamadas conjuntas com o BIOTA-FAPESP, programa com histórico robusto em base científica para políticas de biodiversidade. A sinergia visa acelerar a tradução de dados em instrumentos legais e de gestão territorial.
O programa também deu suporte técnico à projeção do Brasil na COP-30 e ao experimento AmazonFace, que testa a resiliência da floresta a concentrações elevadas de CO₂. São frentes que mantêm a relevância geopolítica, mas a coordenação reforça: o foco agora é a emergência local.
O que observar daqui para frente
O próximo ciclo (2030-40) será o teste de fogo. Editais “indisciplinares” começam a sair ainda neste semestre. Para empresários e gestores públicos, o sinal é direto: projetos que ignorarem a variável saúde-vulnerabilidade-percepção social terão dificuldade de acesso a fomento e, mais crítico, de licença social para operar. A ciência climática brasileira saiu da torre de marfim; o mercado e a administração pública precisam fazer o mesmo caminho — e rápido.
