A Starbucks retirou ou enfraqueceu compromissos ambientais centrais enquanto executa um plano de corte de US$ 2 bilhões em custos. A decisão marca uma guinada brusca para a empresa que, há poucos anos, colocava a sustentabilidade no coração de sua identidade corporativa.
O relatório de impacto global mais recente omite metas antes públicas: reduzir pela metade o consumo de água, zerar resíduos em aterros e cortar 50% das emissões de carbono até 2030. Em seus lugares, aparecem objetivos mais brandos ou “em reavaliação”.
O que desapareceu do papel
Dados concretos ilustram a mudança de rota. O relatório anterior registrava captação anual de cerca de 500 bilhões de litros de água; o novo documento cita apenas 53 bilhões em escopo “operacional”, métrica bem mais restrita. A meta de resíduos em aterros — 681 mil toneladas em 2024, alta de 6% sobre 2019 — simplesmente sumiu.
Nas embalagens, a promessa de cortar 50% de plásticos virgens de origem fóssil virou redução de 5% em “plásticos virgens” totais. A meta de conteúdo reciclado caiu de 50% para 25%, “conforme disponibilidade”.
Emissões: a meta que resiste, mas balança
O compromisso de reduzir emissões totais (escopos 1, 2 e 3) pela metade até 2030 permanece no texto, porém a empresa admite “reavaliação ativa” devido a novas regulações e normas. Emissões totais de 2025 ficaram 7% acima da base de 2019. A Starbucks promete nova meta “alinhada à ciência” para início de 2027.
- Água: meta de -50% removida; foco em acesso a água limpa para 5 mi de pessoas.
- Resíduos: meta de aterro zero omitida; sem dados atualizados.
- Embalagens: -5% plásticos virgens (antes -50%); 25% conteúdo reciclado (antes 50%).
- Carbono: -50% mantido, mas “em reavaliação”; alta real de 7% desde 2019.
Cortes que explicam o recuo
Mais de 2.000 postos corporativos foram eliminados nos últimos dois anos. Dezenas atuavam em sustentabilidade, incluindo a ex-diretora Marika McCauley Sine. A nova chefe, Kelly Goodejohn, acumula sustentabilidade e impacto social. Ex-funcionários relatam “esvaziamento das equipes de sustentabilidade e fornecimento ético”.
O CEO Brian Niccol, no cargo desde 2024, comanda o ajuste de US$ 2 bi. O crescimento da rede — mais lojas, mais copos — pressiona indicadores: dois terços das bebidas vendidas hoje são geladas, servidas em copos de polipropileno que teste independente mostrou não serem reciclados na prática. A Starbucks contesta a metodologia do teste.
O que ainda segue de pé
Nem tudo foi descartado. A meta de tornar 100% das embalagens voltadas ao consumidor reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis até 2030 permanece. A certificação ecológica de lojas superou a marca de 10.000 unidades antecipadamente.
O que observar daqui para frente
Três sinais dirão se o recuo é tático ou estrutural: a nova meta de carbono prometida para 2027, a evolução real de resíduos por loja (não apenas por faturamento) e a capacidade de escalar copos reutilizáveis sem depender de infraestrutura municipal de reciclagem. Investidores e franqueados devem monitorar se a simplificação de metas libera capital para eficiência operacional — ou apenas posterga passivos ambientais que voltarão na forma de regulação ou rejeição de consumidor.
