Levantamento exclusivo do Instituto Trata Brasil revela: apenas 13 dos 62 principais candidatos a governador apresentam planos abrangentes para universalizar água e esgoto. A maioria cita o tema, mas foge de metas concretas e regulação.
O dado expõe um abismo entre o discurso eleitoral e a capacidade de gestão nos estados que mais precisam de investimento. O que isso sinaliza para o seu negócio ou investimento nos próximos quatro anos?
O raio-X das propostas: muito barulho, pouca entrega
A análise cobriu quatro eixos essenciais: planejamento para universalização, viabilização financeira, governança/regulação e metas tangíveis. Candidatos foram classificados em quatro níveis, do “ausente” ao “abrangente”.
O resultado é um termômetro da seriedade administrativa:
- Abrangentes (4 eixos): 13 candidatos (21%)
- Transversais (2 a 3 eixos): 44 candidatos (71%)
- Superficiais (1 eixo): 5 candidatos (8%)
- Ausentes: 0
Todos tocaram no assunto, mas a profundidade é o diferencial. A presidente do instituto, Luana Pretto, resume: “O tema entrou no debate, mas falta compromisso com números”.
Onde o dinheiro para: a armadilha da “universalização genérica”
O termo “universalização” aparece em 87% dos planos. Parece consenso, mas é uma miragem. Apenas 26% dos candidatos ousam cravar percentuais de atendimento para o fim do mandato.
Sem meta, não há como cobrar. Sem regulação forte — citada por só 32% —, não há quem garanta que a expansão não vire obra inacabada ou serviço caro e ruim. Para o investidor privado, isso eleva o risco regulatório e a incerteza de retorno.
O mapa do risco: onde o déficit grita e o silêncio impera
O alerta mais forte vem dos estados com piores indicadores históricos. Acre, Maranhão e Amazonas têm candidatos que mal mencionam saneamento básico.
“Faltam sete anos para a meta nacional de universalização. Se o governador não se compromete agora, o estado chega em 2033 devendo”, alerta Pretto. Para quem opera ou financia infraestrutura nessas regiões, o sinal é vermelho: a instabilidade política pode travar contratos e financiamentos.
O que separa promessa de projeto viável
A pesquisa mostra que temas técnicos — essenciais para bancabilidade — são ignorados pela maioria:
- Regionalização (ganha escala e atrai capital): 45%
- Saneamento rural (gap logístico enorme): 66%
- Governança de dados (transparência para o mercado): 24%
- População vulnerável (tarifa social e inclusão): 35%
Um plano que pula esses pontos tende a gerar judicialização, reequilíbrios contratuais constantes e fuga de capital privado. O custo disso recai sobre a tarifa e o contribuinte.
O que observar daqui para frente
O segundo turno e as posses em janeiro serão o teste real. Acompanhe se os eleitos transformam “eixos transversais” em leis estaduais de saneamento, decretos de regionalização e contratos de programa com metas anuais publicadas.
Para o setor produtivo, a dica prática: mapeie os 13 “abrangentes”. Cruze com a carteira de projetos de PPPs e concessões estaduais. Onde houver plano estruturado + agência reguladora técnica + marco legal estadual atualizado, o risco cai e o *pipeline* de investimentos anda. Onde houver apenas retórica, prepare-se para volatilidade regulatória e atrasos.
