O Brasil vive uma mudança estrutural no modo como empresas enfrentam crises financeiras: a recuperação extrajudicial deixou de ser exceção e virou ferramenta padrão de gestão. Em junho, 346 CNPJs estavam nesse regime — o pico histórico da série iniciada em 2023 pela RGF Associados.
O movimento não é pontual. Tutelas cautelares, que congelam cobranças por 60 dias e costumam anteceder o pedido formal, dobraram em 2025: 465 concessões contra 232 no ano anterior. Só até agosto já somavam 313.
Por que a porteira abriu de vez
A Lei 14.112, de 2020, reduziu o quórum de aprovação para um terço dos créditos e fixou em 50% mais um a votação do plano. Deu também 180 dias de blindagem contra execuções e regulamentou o financiamento DIP — dinheiro novo que recebe prioridade absoluta se a empresa falir.
Na prática, a legislação tirou o caráter terminal do processo. “Virou um capítulo da história, não o fim dela”, resume Eduardo Médicis, CEO da Lift Capital. O gestor traça paralelo com o Chapter 11 americano: menos burocracia, mais preservação de valor.
O caso Raízen e o sinal verde do mercado
O marco simbólico veio com a Raízen. Maior RE da história, envolveu R$ 65 bilhões em dívidas e adesão superior a 80% dos credores. A empresa entrou com caixa, em dia com fornecedores, para corrigir o tamanho do endividamento financeiro antes que ele consumisse a operação.
Giuliano Colombo, do Pinheiro Neto Advogados, atuou no processo e destaca três vantagens decisivas: previsibilidade, prazo mais curto e custo menor frente à recuperação judicial tradicional.
Bancos deixam de ser espectadores
Leandro Vilain, CEO da ABBC e presidente eleito da Febraban, descreve a nova dinâmica: credores passam a exigir assento no conselho, mudanças de gestão e ajustes de rota em troca de dinheiro novo. “Se você quebrar, eu perco tudo. Então aumento a aposta e exijo governança”, sintetiza.
Essa intervenção ativa, porém, concentra-se nas grandes. No segmento menor, a realidade é outra.
Pequenas puxam a fila — e pagam a conta mais cara
Dados do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre) mostram 83 processos em 2025, alta de 26%. Em 2026, já passam de 50. Claudio Damasceno, da RGF, confirma: “Estabilização nas grandes, crescimento acentuado nas pequenas e médias.”
Malek Zein, da Suno Research, coloca em números o sufoco: custo de capital acima de 30% ao ano para PMEs, com Selic a 14%. “Taxa extorsiva, mas inevitável diante da inadimplência e do juro básico alto.”
- 346 CNPJs em RE no pico de junho (RGF)
- 465 tutelas cautelares em 2025 — dobro de 2024
- 83 recuperações homologadas em 2025 (Obre)
- >30% a.a. custo de capital estimado para PMEs
O que observar nos próximos trimestres
A combinação de juro real elevado, crédito restrito e arcabouço jurídico favorável cria ambiente fértil para novas ondas de reestruturação. Damasceno projeta incremento contínuo nos pedidos, puxado pelo segmento de menor porte.
Para investidores e gestores, o recado é claro: a RE deixou de ser sinal de alerta vermelho e passou a indicar gestão ativa de passivo. Quem souber ler os planos de reestruturação — e separar os casos de ajuste estratégico dos de insolvência real — ganha vantagem na alocação de capital. O próximo gatilho a monitorar é a evolução da Selic e a eventual flexibilização do crédito bancário, que pode frear ou acelerar esse ciclo.
