Educação

O segredo da elite dos concursos: mestre do Português parte aos 67…

Retrato do professor Filemon Félix de Moraes, especialista em português para concursos públicos
Professor Filemon Félix de Moraes (1959-2024), referência em português para concursos de alto nível

O professor Filemon Félix de Moraes morreu aos 67 anos, vítima de um câncer agressivo, mas o método que ele lapidou para dominar a língua portuguesa segue ditando as regras nos gabinetes mais poderosos de Brasília. A perda, confirmada neste domingo (27), expõe uma lacuna silenciosa na preparação de alto rendimento para o serviço público federal.

Do quartel ao STJ: uma trajetória atípica

Nascido em Poconé (MT) em 1959, Filemon não começou pela academia. Foi militar e bancário antes de virar a chave para o ensino, há quase três décadas radicado no Distrito Federal. Essa bagagem prática explicava a didática direta, sem floreios, que caiu no gosto de quem precisava de resultado imediato em provas de vida ou morte profissional.

O currículo institucional impressiona: foi assessor de língua portuguesa do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e instrutor da Escola de Administração Fazendária. Ministrou treinamentos fechados para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), Tribunal Superior do Trabalho (TST), Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e Ministério da Defesa.

O império “Português Fácil, Fácil” e os 35 livros

Foi nos concursos públicos, porém, que ele construiu a marca mais forte. O curso “Português Fácil, Fácil!” virou referência obrigatória para quem disputa vagas de alto salário, cobrando interpretação, gramática e redação com uma promessa ousada: descomplicar o que os editais tornam complexo.

A produção literária acompanhou a escala: 35 livros didáticos publicados, além de obras de poesia, contos, crônicas e parábolas. Títulos como Azul Profundo (2007), Meias Verdades (2009) e Certas Coisas Certas (2017) mostram que a técnica não sufocou o autor literário.

  • Atuação institucional: MPDFT, STJ, TST, TSE, Ministério da Defesa.
  • Foco didático: Concursos públicos, vestibulares, treinamentos corporativos.
  • Legado editorial: 35 obras técnicas + 7 livros de literatura autoral.

O arquiteto da Academia de Águas Lindas

Mas o efeito mais relevante aparece na gestão cultural. Fundador da Academia de Letras de Águas Lindas de Goiás (Aletras), ocupou a Cadeira 33 — patronesse Cora Coralina — e presidiu a entidade entre 2017 e 2021. Criou o slogan “Propter Litterarum” (Em prol da literatura) e organizou coletâneas que publicaram dezenas de autores regionais.

Em 2019, viabilizou o lançamento do conto de Maria do Carmo Manfredini, mãe de Renato Russo, resgatando um nome histórico para a cadeira 3 da academia. Em 2024, incentivou nova publicação da mesma autora sobre a saga da família Manfredini.

O vácuo deixado na preparação de alto nível

Colegas e ex-alunos descrevem um professor “generoso ao extremo”, que ministrava aulas gratuitas e formava servidores sem cobrar pelo tempo extra. A filha, Thalita Moraes, resume: “Foi divisor de águas na vida de muitos funcionários públicos”.

O velório ocorre nesta segunda (28), a partir das 13h, na Subprefeitura de Olhos D’Água, com sepultamento às 16h. A comoção envolve desde vizinhos de condomínio em Brasília — que lembravam da humildade e das festas de fim de semana — até a direção da Escola Nova Aquarela, em Valparaíso de Goiás, que creditou a ele o despertar da leitura na educação infantil.

O que observar daqui para frente

Com a saída do principal nome do “Português Fácil, Fácil!”, o mercado de preparatórios para carreiras jurídicas e fiscais perde uma referência metodológica consolidada. Investidores e gestores de edtechs do setor devem monitorar a disputa pelo espólio didático: a herança dos 35 títulos e a base de alunos órfãos de uma didática que transformava complexidade normativa em aprovação. O próximo movimento do setor dirá se o método era pessoal ou replicável em escala.