Educação

Como alunas iniciantes de Santos levaram um curta para festival internacional na Colômbia

Alunas de cinema da Universidade Católica de Santos durante produção do curta Até o Sol Se Pôr
Estudantes do 2º semestre celebram seleção do curta-metragem para festival internacional na Colômbia.

Um curta-metragem produzido por estudantes do segundo semestre de Cinema da Universidade Católica de Santos foi selecionado para o Mujeres Film Festival, na Colômbia. A obra nasceu como exercício de sala de aula, antes mesmo de as alunas terem aulas práticas de roteiro ou direção. O resultado surpreendeu até o professor responsável.

Intitulado Até o Sol Se Pôr, o filme acompanha uma jovem de 21 anos que descobre o retorno de uma doença grave e decide viver intensamente o tempo restante ao lado dos amigos. A seleção para um festival internacional dedicado a obras dirigidas por mulheres coloca em evidência um pipeline de talento que o mercado audiovisual brasileiro ainda subestima.

O fator decisivo: liberdade criativa sem amarras técnicas

O professor André Azenha, responsável pela disciplina Introdução à Linguagem e Produção Audiovisual, revelou um detalhe crucial: o curta foi realizado antes de as estudantes passarem por módulos técnicos de roteiro, direção ou fotografia.

“É um fruto criativo delas”, afirmou Azenha. A ausência de formalismo técnico, paradoxalmente, pode ter sido o diferencial. Sem regras pré-estabelecidas, o grupo priorizou a narrativa emocional e a autenticidade — elementos que festivais internacionais costumam valorizar em produções emergentes.

Uma equipe enxuta, múltiplas funções

A produção revela como a escassez de recursos força a versatilidade — habilidade cada vez mais demandada pelo mercado. Confira a divisão de papéis:

  • Direção: Alícia Munhoz
  • Roteiro e produção executiva: Beatriz Garbin
  • Direção de produção, fotografia, montagem e edição: Maria Paula Villanueva
  • Direção de arte: Laura Behr e Manuela Robertoni
  • Som, pesquisa musical e continuidade: Larissa Nogueira Cancian
  • Design gráfico: Guinevere Gabriella Carvalho

Maria Paula Villanueva acumulou quatro funções críticas. No mercado profissional, cada uma costuma ser ocupada por especialistas distintos. A experiência de “fazer tudo” forma profissionais com visão sistêmica — ativo valioso para produtoras e investidores que buscam equipes adaptáveis.

Por que o Mujeres Film Festival importa para o ecossistema

Realizado em Circasia, no departamento de Quindío, o festival tem missão clara: dar visibilidade a obras dirigidas e produzidas por mulheres. Teve edições em 2021, 2022 e 2023. Em 2026, abriu as portas para inscrições internacionais.

A seleção de Até o Sol Se Pôr sinaliza dois movimentos convergentes: a consolidação de janelas de exibição para diretoras latino-americanas e o reconhecimento de que universidades brasileiras formam talentos competitivos globalmente — mesmo em estágios iniciais de formação.

O que isso ensina a quem investe em formação e conteúdo

Três lições práticas emergem deste caso para gestores de cursos, fundos de fomento e produtoras:

  • Exercícios de sala podem virar ativos de mercado se houver curadoria e incentivo à inscrição em festivais.
  • Equipes multidisciplinares desde cedo reduzem gargalos de comunicação em projetos futuros.
  • Festivais de nicho (como o Mujeres) oferecem ROI de visibilidade superior aos grandes eventos generalistas para obras de estreia.

O curta ainda não tem data de estreia comercial. Mas sua trajetória — de exercício acadêmico a seleção internacional em menos de um ano — funciona como prova de conceito de que o funil de talentos do audiovisual brasileiro precisa de mais pontes entre academia e mercado. Quem observar essa ponte daqui pra frente sai na frente na identificação de novos nomes e projetos viáveis.