Saúde

Você não vai acreditar: só 324 em Campinas formalizaram doação de órgãos

Infográfico mostra apenas 324 doadores de órgãos registrados em Campinas
Campinas tem só 324 moradores com doação de órgãos formalizada em cartório via plataforma Aedo.

Campinas tem apenas 324 moradores com vontade de doar órgãos registrada em cartório. O número expõe uma lacuna silenciosa: a maioria das pessoas ainda não transformou o desejo em ato jurídico. E, mesmo quem registra, não garante a doação — a família tem a palavra final.

O dado vem da plataforma Aedo (Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos), do Colégio Notarial do Brasil. Lançada em 2024 sob regulação do CNJ, a ferramenta é gratuita, 100% digital e alimenta a Central Nacional de Doadores, consultada por equipes de transplante em todo o país.

O que o registro resolve — e o que não resolve

Muita gente acredita que assinar o termo em cartório basta. Não basta. A lei exige consentimento familiar no momento da morte. O registro serve como prova documental da vontade do doador, o que costuma reduzir a recusa dos parentes. Em São Paulo, a recusa caiu 1,3 ponto percentual no último ano, ajudando a elevar em 33% o número de doadores efetivos: de 1.023 para 1.363.

Mas o gargalo persiste. Cada “não” da família interrompe uma cadeia que poderia salvar até oito vidas.

São Paulo lidera, mas a adesão ainda é baixa

O estado concentra 9.399 autorizações formalizadas — o maior volume do Brasil. O Paraná aparece em segundo, com 3.818. Ainda assim, são números tímidos diante de uma população de quase 45 milhões de paulistas. Campinas, com 1,2 milhão de habitantes, tem 324 registros. A proporção fala por si.

  • Processo leva minutos: acesso pelo app e-Notariado, escolha do cartório, videoconferência com tabelião, assinatura eletrônica.
  • Revogável a qualquer momento: o doador muda de ideia quando quiser, sem burocracia.
  • Escolha seletiva: é possível definir quais órgãos, tecidos ou partes do corpo deseja doar.

Por que a família ainda decide?

A legislação brasileira prioriza a autonomia dos parentes no momento da dor. Equipes de transplante não abordam a família se não houver indício de vontade prévia. O registro na Aedo cria esse indício oficial. Dados do Sistema Nacional de Transplantes mostram que, quando há documento, a conversa flui de forma diferente — a recusa não desaparece, mas diminui.

O Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado neste domingo (27), reforça a campanha: converse com quem fica. O papel assinado ajuda, mas a conversa de hoje evita o dilema de amanhã.

O que observar daqui para frente

A expansão da Aedo para todos os estados e a integração com prontuários eletrônicos hospitalares são os próximos passos. Se a plataforma virar rotina em check-ups anuais ou emissões de documentos, o número de registros pode saltar. Enquanto isso, a conta é simples: 324 pessoas em Campinas deixaram a vontade clara. Quantas das demais já conversaram com a família?