O setor produtivo do Distrito Federal rompeu o silêncio e exigiu trégua na guerra política que ameaça afundar o Banco de Brasília. Cinco das maiores entidades empresariais da capital assinaram manifesto nesta quinta-feira (17) cobrando “diálogo institucional” e “cooperação harmoniosa” — termos diplomáticos para um recado direto: parem de brigar e salvem o banco.
O estopim foi a troca de farpas entre o presidente Lula e a governadora Celina Leão (PP). Ele a chamou de cínica e negou socorro federal. Ela respondeu acusando o Planalto de querer “quebrar o BRB”. No meio do tiroteio, uma instituição que movimenta a economia local sangra.
O que o manifesto diz — e por que importa agora
O documento não pede favor. Exige rigor técnico nas apurações, mas alerta: decisões sobre o BRB devem ser “estritamente técnicas e de governança”, independentes de “debates partidários ou calendários eleitorais”. A leitura subliminar é clara: o banco não pode virar moeda de troca na disputa 2026.
Assinam o texto Ademi-DF, Asbraco, Codese/DF, Fecomércio-DF e Sinduscon-DF. Juntas, representam a espinha dorsal da construção civil, do comércio, dos serviços e do planejamento estratégico da capital. Não é grupo de pressionadores de gabineta — são quem contrata, financia e emprega.
A conta que não fecha: R$ 6,6 bilhões parados no Supremo
A crise tem nome, CPF e valor: carteiras fraudulentas compradas do Banco Master, de Daniel Vorcaro. O buraco de capital e liquidez forçou o GDF a buscar um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões junto ao FGC (Fundo Garantidor de Créditos).
O desenho original, costurado no STF, previa:
- Grandes bancos privados como fiadores da operação
- Contragarantias lastreadas no FPE (Fundo de Participação dos Estados) e FPM (Fundo de Participação dos Municípios)
O arranjo travou. Nenhum banco topou assinar sem a União por trás. O GDF então judicializou: pediu ao Supremo que obrigue o governo federal a ser fiador. O ministro Luiz Fux deu 15 dias sucessivos (até 45 dias corridos) para União, Banco Central e FGC se manifestarem. O relógio corre.
Por que o empresariado teme o colapso
O BRB não é apenas “o banco do governo”. Ele responde por fatia relevante do crédito imobiliário, do financiamento a micro e pequenas empresas e da folha de servidores. Uma intervenção ou liquidação desorganizada congelaria linhas de crédito, atrasaria pagamentos e geraria efeito cascata no comércio e na construção — setores que já operam com margens apertadas.
O manifesto admite: “a recuperação demanda rigor técnico e apuração responsável”. Mas completa: “instituições de desenvolvimento permanecem para além de mandatos e governos”. Tradução: o banco é ativo de Estado, não de governo.
Cenários na mesa — e o que ninguém diz em voz alta
Três caminhos se desenham, nenhum indolor:
- Acordo no STF com União fiadora: exige vontade política que hoje não existe. Lula já disse “não”.
- Capitalização via mercado: improvável com a reputação arranhada e incerteza jurídica.
- Intervenção do BC: o “remédio amargo” que o manifesto tenta evitar — e que custaria caro ao erário distrital.
O prazo de Fux (até 45 dias) virou a nova data-limite. Se nada avançar, a pressão por intervenção federal cresce — e o Distrito Federal perde o controle da narrativa.
O que observar daqui para frente
Três movimentos definem o desfecho nas próximas semanas: a manifestação da AGU e do BC no Supremo (prazo fatal), a disposição dos grandes bancos em assumir risco sem a União, e a capacidade do GDF de apresentar plano de recuperação crível — com cortes, governança nova e transparência total sobre as carteiras do Master. O manifesto empresarial foi a deixa. A peça agora está no tabuleiro do Judiciário e da política. Quem piscar primeiro, paga a conta.
