Economia

Inflação na mesa: alta de 1,35% em outubro esconde uma virada silenciosa…

Gôndola de supermercado com carnes e placas de preço, simbolizando alta de 1,35% na inflação dos alimentos em São Paulo
Inflação dos alimentos em SP acelera 1,35% em outubro, puxada pela carne bovina.

A inflação dos alimentos em São Paulo disparou 1,35% em outubro, mais que triplicando o ritmo de setembro. O dado assusta, mas a leitura das últimas semanas revela um detalhe crucial: a pressão arrefeceu justamente quando o mês terminava.

Essa desaceleração na reta final muda o cenário para novembro. Entender o que está por trás dos números — da carne ao clima — define se o alívio no bolso é real ou passageiro.

O vilão tem nome: boi gordo a R$ 390

A proteína animal carregou o índice nas costas. A arroba do boi gordo firmou-se em R$ 390, empurrando a carne bovina para uma alta de 3,8% apenas no mês passado. No acumulado do ano, o avanço já passa de 13% na capital paulista.

Para o varejo, o repasse é imediato. O consumidor sente no açougue e no supermercado, sem margem para negociação. Enquanto a oferta de gado terminada não melhorar, esse patamar serve de piso para os preços.

Grãos e óleos: o alívio que veio da lavoura

Nem tudo subiu. Itens que pressionavam a cesta básica nas semanas anteriores perderam fôlego em outubro. O movimento sugere que a safra e a logística começam a responder:

  • Óleo de soja: chegou a acumular 4,70% na segunda quadrissemana, mas fechou o mês em 1,59%.
  • Arroz: parou de subir no varejo com a estabilidade no campo, embora ainda carregue 6% de alta em 30 dias.

Essa trégua nos derivados de soja e cereais evitou que o índice geral fosse ainda pior.

Chuva e logística: o custo do “in natura”

Frutas, legumes e verduras subiram 5% no mês. Tomate e cebola lideraram as altas, vítimas diretas do excesso de chuvas que atrapalhou colheita e transporte nas regiões produtoras.

Diferente dos grãos, esses produtos não têm estoque regulador. Qualquer gargalo logístico vira reajuste na gôndola na mesma semana. A dependência climática torna esse grupo o mais volátil da cesta.

O termômetro de novembro: estabilidade no campo

As primeiras cotações de novembro mostram os preços agrícolas paralisados. Se o produtor não recebe mais, o varejo tende a estancar os repasses nas próximas semanas. Veja os referenciais atuais:

  • Saca de arroz (RS): R$ 82
  • Saca de soja (PR): R$ 152
  • Saca de café arábica (MG): R$ 1.600
  • Arroba do boi gordo: estável em R$ 390

Manter esses patamares é a condição necessária para a inflação de alimentos convergir para um dígito baixo no curto prazo.

Dois riscos no radar para os próximos meses

O cenário não está consolidado. Dois vetores externos podem reverter a calmaria atual:

El Niño intensificado: Model climáticos indicam fenômeno mais forte até o meio do ano que vem. Isso ameaça novas safras e a logística de escoamento, pressionando sobretudo os perecíveis.

Demanda externa aquecida: As exportações seguem drenando a oferta interna. Só em outubro, saíram 6 milhões de toneladas de soja e 5,6 milhões de milho. Para novembro, a ANEC projeta mais 3,3 milhões de soja e 6 milhões de milho. Menos grão no mercado doméstico pressiona ração animal e, em cascata, carnes e ovos.

O que observar daqui para frente

O empresário e o investidor devem monitorar três variáveis nas próximas divulgações semanais da Fipe: a manutenção do boi gordo abaixo de R$ 400, a confirmação da estabilidade do arroz e soja no atacado e a evolução das chuvas no Centro-Sul. A combinação desses fatores dirá se a desaceleração de outubro foi um suspiro ou o início de uma tendência.