Itapetininga completa 256 anos com um PIB de R$ 8 bilhões — um salto de 123% em dez anos, segundo o IBGE. Como uma cidade de 160 mil habitantes dobrou a riqueza e passou a vender para a China e a Europa?
A resposta não está em um único setor, mas na combinação silenciosa entre agronegócio de escala, indústria nascente e marcas que transformam matéria-prima local em produto premium global.
O mapa da riqueza: serviços lideram, mas o agro abre as portas
Dados consolidados mostram uma economia equilibrada. Serviços e comércio respondem por 55,4% do PIB. A indústria pesa 25%. A agropecuária direta fica entre 7% e 12%, mas seu efeito multiplicador impulsiona os outros dois pilares.
O termômetro externo confirma a vocação exportadora. Nos primeiros meses de 2025, as exportações somaram US$ 451,5 milhões, alta de 126,7% sobre o ano anterior. As importações caíram 45,8%, resultando em superávit comercial robusto.
- China: 71% do total exportado
- Holanda: 4%
- Chile: 2,8%
- México: 2,3%
O grão responde sozinho por 70% da pauta. Painéis de madeira, sucos, carnes e ovos completam a lista, mostrando que a diversificação já começou.
Moda lenta que viaja rápido: o caso Nefertih
Enquanto o agronegócio move toneladas, a Nefertih Clothing move conceito. A marca nasceu da recusa ao fast fashion: produção local, lenta, sustentável e politizada. O slogan “Made in Itapê” estampa camisetas, bonés e meias.
Ao menos 80% da confecção acontece no município. O restante segue o mesmo padrão ético, auditado de perto. Em seis anos, peças saíram de Itapetininga para Paris, Dublin, Manchester e Manaus.
“A maior venda é na região, mas o passaporte carimbado prova que origem não limita destino”, resume a fundadora Laura Paiva. A marca fatura com identidade: quem compra leva o orgulho de um endereço pouco óbvio no mapa da moda.
Tecnologia no copo: soja virando proteína premium
A Iasi (Indústria de Alimentos Saudáveis) tem três meses de vida e um foco cirúrgico: bebida vegetal proteica à base de soja local, vegana, sem adição de açúcar. A engenheira Beatriz Ziglio define o posicionamento: “produtos inteligentes para público A e B”.
A fábrica processa o grão integral — recebe, descasca, moe, coze e extrai em equipamento próprio. O resultado é pasteurizado, preservando microbiota benéfica. A produção atual é modesta: 150 litros/mês.
Mas a escala vem aí. Contrato exclusivo assinado prevê expansão imediata para a Grande São Paulo. Nichos já mapeados: infantil (alergia à lactose), idosos (suplementação proteica) e empórios de alta renda.
O que observar daqui para frente
A cidade demonstra um ciclo virtuoso: a soja financia a balança comercial e alimenta a indústria de valor agregado (Iasi). O excedente de riqueza sustenta serviços e comércio. Marcas como a Nefertih provam que ativos intangíveis — design, narrativa, origem — também geram divisas.
Para investidores e gestores, três vetores merecem monitoramento contínuo: a velocidade de diversificação da pauta de exportação além do grão in natura, a capacidade de escala das indústrias nascentes (alimentos e têxtil) e a infraestrutura logística para sustentar o superávit comercial crescente. Itapetininga deixou de ser apenas passagem de tropeiros. Hoje, exporta identidade junto com commodities.
