O Inteli, instituto fundado pelos sócios do BTG Pactual, fecha o quinto ano com faturamento de R$ 70 milhões e um modelo que desafia o ensino superior tradicional. A meta agora é romper o teto de 960 alunos e lançar cursos em áreas onde o Brasil já lidera globalmente.
CEO Maira Habimorad revela que engenharia de produção, energia e agronegócio estão no radar. Mas a expansão esbarra em uma tensão delicada: até onde uma faculdade pode atender o mercado sem abrir mão da formação humanista?
O modelo que inverte a lógica do campus
Diferente das universidades convencionais, o Inteli nasceu de uma dor concreta do setor corporativo: a distância entre o que se ensina e o que se exige no primeiro dia de trabalho. A resposta foi um currículo organizado em projetos reais, onde atividades extracurriculares viraram disciplina obrigatória.
Hoje, 60% da receita vem da graduação e 40% de MBAs e educação executiva. O campus na Cidade Universitária comporta 700 alunos de graduação no turno principal, enquanto pós-graduação ocupa o contraturno. A estrutura atual suporta até 960 estudantes — um teto que já começa a apertar.
Mensalidade de R$ 7.800, mas metade não paga
O valor cheio assusta, mas a realidade é outra: 371 dos 712 alunos são bolsistas integrais. Vêm de 115 municípios e todos os estados. “Talento não escolhe CEP para nascer”, resume Habimorad. O programa é financiado por doadores que batizam as bolsas, criando vínculo direto entre quem investe e quem estuda.
- 30% mulheres — triplo da média em cursos de tecnologia
- 25% pretos e pardos — recorte socioeconômico das bolsas puxa a diversidade racial
- Primeira turma formou 138 alunos em 2024
Para a CEO, volume muda a cultura: com 5% de bolsistas, eles ficam à margem. Com 50%, o ambiente é desenhado para todos. A integração de realidades tão distintas exige mediação de conflitos e comunicação não violenta — disciplinas que viraram rotina no campus.
O risco de virar “escola de empresa”
Habimorad admite o perigo: subordinar o ensino às demandas imediatas do mercado e deixar de lado pesquisa, pensamento crítico e formação cidadã. A defesa é que liderança não se resume a lucro. “A elite está ganhando consciência de que seu papel não é só ganhar dinheiro”, afirma.
O posicionamento rende atritos. A faculdade se recusa a tratar aluno como cliente. “Aqui você não é cliente. Não gostou, pode procurar outro lugar”. A estrutura sem fins lucrativos dá liberdade para dizer não — inclusive a pais que exigem notas ou tratamento diferenciado.
IA na sala de aula: prova oral virou escudo
Com ferramentas generativas resolvendo listas de exercícios em segundos, a avaliação migrou para sustentação oral ao vivo e atividades em sala. O objetivo não é punir o uso de IA, mas garantir que o estudante domine o raciocínio por trás da resposta.
“No fim, queremos líderes éticos. A preservação do Estado de Direito deveria preocupar toda liderança”, diz Habimorad. A frase ecoa em um momento onde decisões técnicas têm impacto social imediato.
O que observar nos próximos movimentos
A expansão para engenharia de produção sinaliza uma aposta: o profissional híbrido — que entende código, custo, logística e gente — será o mais disputado. Energia e agronegócio seguem a mesma lógica: setores onde o Brasil é potência, mas carece de talentos que falem tecnologia e negócio na mesma frase.
O investimento inicial de R$ 200 milhões dos fundadores já tem retorno visível: sustentabilidade financeira em cinco anos. Agora, a pergunta é se o modelo escala sem diluir a proposta original. Concorrentes como Insper, ITA e Poli-USP observam. O mercado, também.
