Tecnologia

China solta IA que codifica e opera PC; Pequim treme com empregos

IA chinesa autônoma codifica e controla computador, ameaçando vagas juniores em tecnologia
Meituan e Tencent lançam IAs que operam PCs sozinhas, alarmando governo chinês sobre empregos

Em 48 horas, duas gigantes chinesas mostraram IAs que escrevem código sozinhas e controlam mouse e teclado. O governo já sabe: vagas de entrada em tech podem sumir antes de abrir.

Meituan e Tencent não combinaram, mas o timing expõe a corrida silenciosa que assombra o Conselho de Estado.

Os dois lançamentos que mudam o jogo

Na segunda-feira (2), a Meituan — dona do maior app de delivery da China ao lado da Ele.me — liberou a versão final do LongCat-2.5. O modelo resolve tarefas longas de programação sem supervisão humana constante.

Quarta-feira (4) foi a vez da Tencent, controladora do WeChat. O Hy4 estreia a capacidade de operar um computador de ponta a ponta: move cursor, clica, digita, troca de janelas.

Nenhum dos dois precisa de licença regulatória para chegar ao mercado. Isso muda tudo.

Por que Pequim perdeu o sono

Duas semanas antes, o Conselho de Estado publicou orientação inédita: tratar “com prudência o alcance, a intensidade e o ritmo” da IA em setores intensivos em mão de obra.

O documento usa o termo “desenvolvimento amigável ao emprego” — mesma expressão do economista Cai Fang em editorial do jornal do Partido.

Não é alarmismo. Os números explicam a urgência:

  • 18,9% de desemprego entre jovens de 16 a 24 anos (agosto/2024)
  • 12,7 milhões de recém-formados entrando no mercado este ano
  • Recorde histórico de graduados sem vaga

O que a orientação determina — e o que falha

O parecer não tem força de lei nem prevê punição. Mas exige avaliação de impacto no emprego durante a análise de projetos que dependem de autorização (ex.: robotáxis). Recomenda o mesmo para demais setores.

Às empresas, sugere:

  • Período de amortecimento antes de cortes em massa
  • Aviso prévio a quem será afetado
  • Requalificação profissional para demitidos

Funciona para fábricas de roupa, montadoras, táxis autônomos. Falha onde o corte é invisível.

O buraco que a regulação não cobre

LongCat-2.5 e Hy4 miram programadores e analistas júnior. Não há licença envolvida. Não há demissão com nome e data — apenas vagas que deixam de ser abertas.

O caso Zhou ilustra a exceção. Supervisor de 35 anos em Hangzhou, ganhava 25 mil yuans (R$ 20,5 mil) conferindo respostas de IA. Recusou cargo a 15 mil yuans (R$ 12,3 mil). Foi demitido sob alegação de que a IA fazia o serviço.

Ganhou na arbitragem e em duas instâncias judiciais. Indenização: 260 mil yuans (R$ 213 mil). Teve contrato e demissão por escrito — raridade.

O padrão real é outro: a vaga júnior some do site de carreiras. O desemprego jovem sobe. Ninguém processa.

O que observar daqui pra frente

Pequim aposta em cursos de IA e novas profissões — “treinador de modelos” virou ocupação oficial. Mas a velocidade dos lançamentos (dois modelos de ponta em 48h) sugere que a lacuna entre regulação e realidade só aumenta.

Para quem investe ou lidera times de tech: o sinal é claro. A automação de entrada chegou à China sem pedir licença. O próximo trimestre dirá se o “amortecimento” prometido vira política ou fica no papel.