Entre janeiro e novembro de 2026, uma força-tarefa recolheu 21,5 toneladas de cabos irregulares dos postes de Ribeirão Preto. O volume equivale a 15 automóveis compactos empilhados sobre a rede aérea da cidade — e a conta não para no peso.
O que começou como ação de segurança viária expôs uma falha de governança que já derrubou a internet de escritórios e coworkings sem aviso prévio. Entender a divisão de responsabilidades virou questão de sobrevivência para quem depende de conectividade ininterrupta.
O mapa do risco invisível
Vistorias técnicas mapearam 381 postes com ocupação clandestina — empresas sem contrato usando a infraestrutura — e 904 pontos onde cabos regulares estão sem a identificação obrigatória. A fiscalização classifica o problema em três frentes:
- Ocupação clandestina: instalação sem contrato com a concessionária dona do poste.
- Fiação irregular: operadora contratada, mas cabos fora de normas ou em pontos não autorizados.
- Cabo morto: fiação desativada abandonada, adicionando peso e risco de queda.
Cada categoria exige resposta distinta, mas o emaranhado dificulta a separação cirúrgica. Foi essa confusão que provocou o incidente de outubro no bairro City Ribeirão.
Quando a limpeza derruba o negócio alheio
Durante retirada emergencial de fios irregulares, equipes cortaram acidentalmente cabos de provedores regulares. Resultado: escritórios e espaços de coworking ficaram offline por horas. Cláudio Placa, diretor de tecnologia da provedora Alcans, resume o dilema: “Provedores não regularizados embolam os fios. Na limpeza, a equipe puxa e rompe cabos regulares junto”.
O empresário Robinson Cardoso, afetado pelo apagão, cobra o óbvio: “Falta comunicação clara entre Prefeitura, CPFL e operadoras para que empresários sejam avisados com antecedência”. A reclamação expõe uma lacuna operacional — não há protocolo de notificação prévia para manutenções programadas que afetem serviços de terceiros.
Quem responde pelo poste? A conta tripartite
A responsabilidade é compartilhada por regra federal e municipal:
- CPFL Paulista: proprietária dos postes. Gerencia aluguel, fiscaliza normas e notifica irregularidades.
- Operadoras de telecom: donas dos cabos. Pagam aluguel, devem manter fios alinhados, identificados (placa com nome e telefone) e remover cabos desativados.
- Prefeitura: coordena cronograma via Coinfarp, fiscaliza legislação municipal e recebe denúncias (156 ou app SAM).
O fluxo padrão: CPFL detecta irregularidade → notifica operadora com prazo → sem correção, aplica sanções e multas → remoção forçada. Em emergência (fios caídos, energizados, clandestinos), a distribuidora corta imediatamente sem aviso.
O custo oculto da “estética”
Elidiane Bernardi, consultora da CPFL, foi direta: “Não é só estética. Primeiramente é segurança, para que cabos estejam segundo normas da Anatel e Aneel. Depois entra a estética”. A prioridade declarada é evitar acidentes com pedestres e motociclistas — risco real, já registrado na cidade.
Mas para o setor produtivo, a “estética” da rede aérea traduz-se em continuidade de negócios. Cada hora de internet parada em escritório de advocacia, contabilidade ou tech significa faturamento zero, SLA violado, cliente perdido.
Como se proteger (e denunciar)
Moradores e empresas têm canais diretos:
- Prefeitura: telefone 156 ou aplicativo SAM (Serviço de Atendimento ao Munícipe).
- CPFL Paulista: 0800 010 1010 (central gratuita).
Regra de ouro: nunca toque, puxe ou corte cabos pendurados. Fiação de telecom pode estar em contato com rede de alta tensão — risco letal.
O que observar daqui para frente
A força-tarefa continua em 2027. Três variáveis definirão o impacto no seu negócio:
- Implementação de protocolo de aviso prévio para manutenções que afetem provedores regulares — hoje inexistente.
- Pressão por identificação física obrigatória em 100% dos cabos (hoje 904 pontos sem placa).
- Migração acelerada para redes subterrâneas ou dutos compartilhados, única solução estrutural de longo prazo.
Enquanto a infraestrutura aérea for o padrão, a gestão de risco cabe a cada empresa: mapeie seu provedor, exija SLA com cláusula de força maior por intervenção em poste, e mantenha canal direto com a fiscalização municipal. O poste na calçada não é só poste — é ativo de continuidade do seu negócio.
