A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) encerrou o financiamento dos dois principais observatórios independentes que monitoram discriminação no esporte nacional. A decisão afeta diretamente a publicação de dados sobre LGBTfobia e racismo, deixando um vácuo de informação justamente quando a entidade prometeu ampliar o combate a esses crimes.
O corte atinge o Anuário do Observatório da LGBTFobia, produzido pelo Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+, e o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, que há 12 anos sistematiza casos de racismo. Ambos dependiam de recursos da entidade para existir.
Parceria desfeita por e-mail
Até 2024, a CBF — sob a gestão de Ednaldo Rodrigues — custeava integralmente o anuário LGBTQ+ e participava de eventos do coletivo. Havia até discussão para transformar a colaboração em contrato fixo, com criação de política interna de diversidade e rede de observadores.
O cenário mudou com a eleição de Samir Xaud, em maio de 2025. Após contribuir parcialmente com a edição de 2025, a entidade enviou um e-mail ao coletivo informando que não haveria verba para 2026. A justificativa oficial: “a CBF não dispõe mais de orçamento neste ano destinado a patrocínio de projetos executados por terceiros”.
Versões opostas sobre a quebra
A confederação alega que, após o último repasse, não recebeu projeto formal com escopo aceitável nem prestação de contas detalhada. O coletivo nega categoricamente. Onã Rudá, fundador do grupo, afirma que todas as demandas foram atendidas e classifica a atitude como um “recuo na temática LGBTQ+ no futebol brasileiro”.
- 2022: Lançamento do 1º Anuário da LGBTFobia.
- 2023-2024: Financiamento total da CBF + participação em eventos.
- Maio/2025: Eleição de Samir Xaud; promessa de “fortalecer ações de combate ao racismo e qualquer forma de discriminação”.
- Junho/2025: Postagem no Dia do Orgulho LGBTQIA+ garantindo parceria com o coletivo.
- Fim de 2025: E-mail cancela patrocínio para anuário 2026, seminário e festival.
Observatório Racial também perde apoio
A interrupção não se limita à pauta LGBTQ+. O Observatório da Discriminação Racial, referência no monitoramento de casos envolvendo atletas brasileiros no exterior, perdeu o apoio da CBF em 2024. O acordo de quatro anos não foi renovado pela nova gestão.
Embora o diálogo institucional permaneça aberto — a CBF deve participar de ação no Dia da Consciência Negra —, a edição 2025 do relatório racial sairá sem recursos da confederação, com lançamento marcado para a sede da Federação Gaúcha.
Discurso de posse versus execução orçamentária
O contraste entre a retórica e a prática chama a atenção. No discurso de vitória, Xaud destacou compromisso com inclusão, sustentabilidade e a retomada da Taça Indígena. Um mês depois, no site oficial, reforçou: “Já estamos em contato com o Coletivo… para trabalhar juntos na construção de um ambiente cada vez mais plural”.
Meses depois, a resposta oficial fala em “criação de estruturas e processos para avaliar e conduzir projetos”, mantendo tudo “em análise”. Para Rudá, o afastamento impede avanços concretos: “A CBF poderia nos ajudar a combater a discriminação, mas infelizmente não conseguimos retomar os diálogos”.
O que observar daqui para frente
A ausência de financiamento público ou privado para esses observatórios compromete a produção de dados primários — essenciais para cobrar punições, criar políticas de prevenção e medir a eficácia de campanhas. Sem o anuário e o relatório racial, o futebol brasileiro perde suas principais radiografias do preconceito.
Fica a incógnita: a “estrutura de análise” prometida pela CBF trará um novo modelo de monitoramento interno ou o vácuo de dados independentes será preenchido apenas por notas oficiais? A resposta definirá se a promessa de “estádios para todos” sairá do papel.
