Economia

Você não vai acreditar: o custo oculto que impede a reestruturação do São Paulo

Dorival Júnior técnico do São Paulo em coletiva, simbolizando dilema financeiro do clube
Dorival Júnior permanece no São Paulo para 2027, contrariando planos de austeridade dos candidatos à presidência.

A permanência de Dorival Júnior e Rafinha para 2027 contraria frontalmente o diagnóstico de austeridade feito pelos dois candidatos à presidência do clube. O choque entre a folha atual e a realidade financeira projetada expõe um dilema que vai muito além do gramado.

Em entrevista ao UOL, o oposicionista Marcelo Portugal Gouvêa cravou: o próximo técnico precisa caber no orçamento, priorizar a base e resolver problemas com o elenco atual. Vinicius de Medeiros, da situação, ainda não detalhou o plano de futebol, mas aliados garantem que a reorganização financeira é inegociável. Nenhum dos dois cenários comporta a estrutura atual.

O peso de uma comissão de elite em um orçamento de reconstrução

O primeiro obstáculo é numérico. Fontes ouvidas pela coluna estimam o custo mensal da comissão técnica de Dorival entre R$ 2,2 milhões e R$ 2,4 milhões. São valores de clube em disputa direta por títulos continentais, não de uma instituição que precisa “gastar menos, contratar muito menos e muito melhor”, como define o próprio colunista Pedro Lopes.

Para efeito de comparação, esse montante supera a folha inteira de departamentos de futebol de rivais que operam com receitas semelhantes. Em um cenário de reestruturação, cada real alocado no staff técnico é um real a menos para quitar passivos ou reforçar o caixa.

Desempenho irregular e a conta das escolhas táticas

Além do custo fixo, o retorno esportivo não justifica o investimento. A campanha atual é mais instável do que as de Hernán Crespo e Roger Machado, antecessores imediatos. A irregularidade aparece nas decisões de vestiário: sob pressão, Dorival recorre a veteranos em detrimento de ativos com potencial de valorização.

Dois exemplos claros ilustram o conflito:

  • Defesa: Rafael Toloi, 32 anos, custo alto e sem margem de revenda, titular no clássico. Nos bastidores, Osório e Isac são tratados como zagueiros de alto potencial para o futuro.
  • Ataque: Ferreirinha e Victor Sá consomem minutos que poderiam acelerar a maturação de Lucca, joia da base com perfil de venda futura.

Mesmo em esquema com três zagueiros — que teoricamente abriria espaço para rodízio —, a opção recai sobre a segurança imediata do nome consolidado. A estratégia protege o resultado de curto prazo, mas posterga a transição geracional que o balanço patrimonial exige.

O perfil das contratações: Rafinha e a aposta no “pronto” caro

A gestão de futebol comandada por Rafinha reforça a tese do desalinhamento. Desde que assumiu como principal executivo, o ex-lateral acertou a vinda de quatro reforços com perfil idêntico: Aurélio Buta, Domingos Duarte, Victor Sá e Iago. Todos com idade entre 29 e 32 anos, salários superiores aos da base e contratos sem cláusulas claras de valorização patrimonial.

Enquanto isso, ativos da casa seguem sem espaço. Igor Felisberto, lateral da Seleção Sub-20, perdeu a concorrência para Buta (lesionado) e Pedro Lima (emprestado pelo Wolverhampton, com passe fixado em euros). O clube paga salário de titular para um reserva lesionado e desenvolve um atleta que não lhe pertence.

O que observar daqui para frente: a janela de 2027 como divisor de águas

O cenário desenha uma tarefa obrigatória para o próximo mandato: promover a saída de veteranos de custo elevado e baixo retorno esportivo. A mudança de filosofia não é opcional — é condição de sobrevivência financeira.

Três variáveis definirão se o São Paulo consegue virar a chave:

  • Resultado da eleição: definirá o mandato para executar a limpa no elenco.
  • Comportamento do mercado: haverá compradores para atletas acima de 30 anos com salários na casa dos R$ 500 mil a R$ 800 mil?
  • Coragem para escalar a base em clássicos: testar Osório, Isac, Lucca e Felisberto em sequências longas, não apenas em minutos finais de jogos decididos.

Se a diretoria eleita mantiver a estrutura atual de comando e gestão, a conta de 2027 será paga com juros: mais endividamento, menos ativos vendáveis e a base estagnada. A reforma começa no vestiário, mas só se sustenta se a planilha fechar no fim do mês.